Álvaro Kassab
JU - O senhor acha que as
tendências apontam para que as mídias sejam complementares?
Waldman - Vai haver uma
influência muito grande de algumas mídias sobre outras. Agora,
existem alguns contextos sociais que não podem ser ignorados. O
computador surge num contexto de uso pessoal. A televisão existe
há muito tempo em outro contexto, embora também possa ser de uso
pessoal, mas freqüentemente, tem uso familiar, coletivo etc, o que, de
certa maneira, torna impossível se pensar o televisor como PC. Agora,
certamente, ela vai incorporar interatividade, sobretudo com a tecnologia
digital. Isso não significa, porém, que essa interatividade
terá as mesmas características fornecidas hoje pela Internet.
JU - É sabido que a
automação agravou a onda de desemprego. O que fazer para conciliar
novas tecnologias e as novas exigências do mercado de trabalho?
Waldman - Isso vai depender
muito da nossa capacidade de enfrentar os desafios educacionais. Basicamente, o
campo educacional está muito voltado aos valores da sociedade industrial.
Isso é compreensível, porque ele tem uma inércia natural.
Ele tende a se reproduzir à medida que os próprios pais olham para
sua própria formação como um padrão a ser legado
para os filhos. De fato, a sociedade industrial enfatizou a disciplina. Ela
exige o horário de trabalho, um certo sincronismo entre as
relações, invariavelmente disciplinadas, com muitas tarefas
repetitivas. O fato é que com toda essa automação caiu o
número de empregos em que estas qualidades são importantes. Na
medida em que a indústria gera menos emprego por capital investido,
é de se esperar que você ter muita gente trabalhando fora desse
ramo industrial. A agricultura também exigia outras qualidades -tem o seu
código próprio de disciplina - e também teve as posturas
dos empregados substituídas por outras,como nessa sociedade que
está emergindo.
JU - Qual seria?
Waldman - O pessoal tem chamado
de sociedade da informação, de sociedade do conhecimento ou
simplesmente de sociedade pós-industrial. Esses nomes não dizem
muita coisa. Na verdade, trata-se de uma sociedade compreendida vagamente por
todos nós. Eu simpatizo mais com a denominação sociedade do
conhecimento. Acho que a questão do processamento da
informação não é a central. Na verdade, muitos
empregos que estão ameaçados hoje são ocupados por pessoas
que processam a informação - trabalhadores de escritório,
secretárias etc. Essas ocupações estão
ameaçadas, já estao diminuindo justamente porque vêm sendo
substituídas por máquinas. Por isso não aprecio muito o
nome sociedade da informação. Sociedade do conhecimento reflete
melhor o atual estado de coisas, essa sociedade emergente que vai resultar
nessas novas tecnologias. Falta ainda definir melhor o que é essa
sociedade do conhecimento.
JU - Como fica o sistema
educacional diante dessas mudanças abruptas?
Waldman - Ele terá de se
adaptar para incutir nas novas gerações as qualidades
necessárias para que essa sociedade do conhecimento funcione. Isso
implica ter muito conhecimento? Sim e não. O conhecimento tem uma
dimensão qualitativa. Falar em muito conhecimento é uma expressao
enganosa. Você está dando uma expressão quantitativa a algo
que é qualitativo. Mas uma coisa que se diz bastante e com a qual eu
concordo é que talvez a qualidade mais importante nessa nova sociedade
seja a capacidade de aprender e saber navegar dentro desse patrimônio de
conhecimento que a humanidade acumulou até este momento. Até
há alguns anos - por exemplo, até a época em que me formei
- se falava que você tinha que carregar uma bagagem de conhecimentos. Acho
que isso está ultrapassado.
JU - Porquê?
Waldman - Não adianta
você pensar em ter uma bagagem de conhecimento para você carregar
para o resto da vida. Como existe uma nuvem de conhecimento que paira dispersa,
o importante não é tanto você carregar sua bagagem, mas sim
ter condições de se movimentar nessa nuvem e capturar
conhecimentos. Trata-se do conhecimento certo, no lugar certo e no momento
certo. É preciso capacidade para captar esse conhecimento com rapidez
para poder aplicá-lo na situação em que ele é
exigido. É claro que isso exige um certo alicerce de conhecimento
básico, mas é mais um alicerce do que uma "bagagem".
Além disso, exige uma nova atitude, e muita disposição.
JU - É prematuro concluir
que o sistema educacional perdeu o pé da situação?
Waldman - Existe um substrato
básico de conhecimento que, digamos, não é um conhecimento
operante diretamente no exercício profissional. É um ferramental
analítico que não muda tanto e tão rapidamente, e que faz
parte nas escolas de engenharias daquilo que a gente chama de ciclo
básico da formação. Por outro lado, para que a pessoa
consiga fazer essa navegação do conhecimento tecnológico,
que é muito mais fluido, esse ferramental analítico é
extremamente importante. Por isso, acho que é necessário dar mais
ênfase a esse conhecimento. Nesse sentido, acho que as escolas
estão um pouco perdidas, pois elas ainda estão tentando produzir
um profissional "formado" no sentido estrito da palavra, e isso
realmente não é mais possível.
JU - Qual seria o papel da
universidade nesse universo?
Waldman - As universidades
vêm mantendo o currículo do ciclo básico mais ou menos como
ele já era. Até aítudo bem. Porém, há uma
necessidade de se olhar isso com mais cuidado, para que os alunos deixem de ver
o ciclo básico como um simples obstáculo para se chegar no ciclo
profissional. É preciso que ele passe a ser visto como parte de um
objetivo, não como um obstáculo para se chegar ao objetivo. Na
verdade, se você for pensar o que o cientista ou profissional de
engenharia hoje vai estudar, comparando com o que ele vai estar usando daqui a
20 anos, provavelmente esse material do ciclo básico é que vai ser
útil. O resto não poderia ser ensinado hoje porque é
conhecimento que ainda não existe.
JU - Há então um
descompasso?
Waldman - A escola não
tem sabido transmitir aos alunos o conceito de que esses conhecimentos fazem
parte do objetivo. Com relação ao conhecimento profissional
propriamente dito, de fato há uma aceleração muito grande,
de tal maneira que existe um problema de como se vai tratar essa defasagem. Na
verdade, o aluno recebe, nos últimos anos de sua formação
profissional, um conhecimento que estará obsoleto em uma década,
ou antes até, como é o caso, por exemplo, da engenharia de
computação ou da mídia. É necessário que a
instituição se adapte a essa aceleração,
especialmente nas áreas tecnológicas. E essa
adaptação está muito lenta, inclusive por questões
institucionais. A universidade foi modelada pensando na formação
de um profissional completo. A universidade tal qual é hoje foi concebida
numa época em que ainda vigorava a bagagem do conhecimento. O sujeito
saía da formatura com uma "mochila" de conhecimento nas costas,
que seria suficiente para o resto da vida.
JU - A universidade vem discutindo
esse problema satisfatoriamente?
Waldman - Não. Existe a
questão da educação continuada: como serão mantidos
atualizados esses profissionais? A nossa universidade está organizada
para ter um sistema de graduação, que são cursos de quatro
ou cinco anos. Terminado esse curso, o estudante vai embora. E um de
pós-graduação que, em princípio, é para
formar pesquisadores. O que acontece então com o profissional que precisa
se reciclar, mas não quer ser um pesquisador? Ele acaba se dirigindo aos
programas de pós-graduação para reciclar sua
formação. Essa necessidade é patente, mas não
deveria ser assim. A universidade deveria ter mecanismos de
educação continuada.
JU - Mas essa demanda não
é nova?
Waldman - Sim, tanto que o
problema está longe de ser equacionado. Como essa demanda não sabe
ainda como se expressar, ela desemboca nos cursos de
pós-graduação, que não foram feitos para isso. Eles
foram criados para formar pesquisador. Esse descompasso é sentido
claramente na sala de aula. Você tem uma mistura de alunos que querem ser
pesquisadores com alunos que querem manter ou recuperar um bom emprego na
indústria, mas que para isso precisam reciclar seus conhecimentos.
São coisas diferentes.
JU - Como o sistema educacional
poderia dar resposta a todos esses problemas?
Waldman - Vai ser
difícil. A questão é tão complexa que talvez a
universidade não consiga dar a resposta. Quanto ao desemprego
tecnológico, ele existe mas não está claro que seja o
responsável como um todo. A tecnologia cria deslocamento de empregos. Os
economistas nos dizem que a questão do emprego está ligada ao
crescimento da economia. A tecnologia, nesse raciocínio, acabaria com
determinados postos de trabalho, mas criaria outros. Ela necessariamente
não aumenta a taxa do desemprego. O que aumenta a taxa do desemprego
é a incapacidade que a economia tem em sustentar a atividade produtiva. O
caso brasileiro, assim como o dos países que importam tecnologia, acaba
criando níveis de produtividade artificialmente altos. Isso acaba gerando
uma dificuldade de absorção pela indústria. Dependendo de
como é feita a gestão ou da própria força da
economia, você poderia gerar empregos em outras áreas, como a de
serviços. Mas basicamente a dificuldade está na gestão da
economia. Por outro lado, quanto mais o sistema educacional preparar as pessoas,
mais você pode ter acesso ao mercado globalizado. Na região de
Campinas, por exemplo, temos um pólo de comunicações.
À medida que você adquire visibilidade, você mostra o seu
potencial. Mas é preciso criar também, no Brasil, empregos de
baixa capacitação, porque senão você não vai
resolver o problema do emprego, uma vez que grande parte da
população não tem qualificação.
JU - O senhor acredita na
massificação das novas tecnologias no País?
Waldman - Acho que é
factível porque nós temos vários fatores que favorecem
isso. Nossa língua é única e isso é muito
importante. Se você colocar um meio à disposição vai
haver uma linguagem comum. Isso não acontece em muitos outros
países. Além disso, nossa população ainda é
jovem. Os jovens apresentam boa receptividade às novas tecnologias. E
também nós não temos uma mentalidade de censura no Brasil.
Há uma identificação do povo brasileiro com tecnologias
modernas. É um país que tem mais televisores em
relação ao nosso nível do que em muitos outros
países. Nossos indicadores estão aí: consumimos
música, vídeos etc. Produzimos bens culturais que têm
penetração nos mercados europeu e americano e temos muita
compatibilidade com as tecnologias modernas.
JU - Como o senhor vê a
evolução da educação a distância? Não
lhe parece que as expectativas iniciais foram muito otimistas?
Waldman - Assim como no caso do
comércio eletrônico, houve muito exagero quanto às
previsões sobre a tecnologia a distância. Especialmente no sentido
de substituição de tecnologia. Acho que a educação a
distância não vai substituir a educação presencial,
mas ela vai complementar. Ela pode ser importante especialmente nessas novas
necessidades ligadas à educação continuada, dos
profissionais já "formados" - que na verdade vão ter que
se atualizar a vida inteira. Seria muito difícil a universidade atacar
esse problema presencialmente porque se trata de uma população
muito grande. É a população adulta profissional que precisa
ser reciclada durante a vida toda. Para fazer isso presencialmente a
universidade teria de se multiplicar, mesmo que ela já estivesse
satisfazendo plenamente as necessidades dos jovens. É uma questão
de necessidade. Isso é um ponto. O outro é a questão da
possibilidade. No caso da educação continuada, como o
público é formado por profissionais já motivados,
então ela é mais informativa. Como o aluno já entende
porque precisa daquilo, naturalmente não teria o problema de
motivação. Na educação da criança, por
exemplo, mais da metade da missão do educador é motivar a
criança. Aí talvez esteja a principal dificuldade da
educação a distância, que informa tanto - às vezes
até mais - do que a educação presencial. Porque você
consegue a informação na tela do computador com muito mais
facilidade do que perguntando para um professor, especialmente se ele não
conseguir responder na hora. Agora, para você estabelecer um
diálogo que motive o educando para aquilo que está sendo feito,
acho que a presença física é muito importante.
JU - Em que sentido?
Waldman - Existe uma riqueza na
interação do professor com o aluno e dos alunos entre si. Isso
é muito difícil de ser substituído num ambiente
intermediado pelo computador. Não é impossível, mas
é difícil. Tenho impressão que nesse momento - é o
que indicam as projeções de mercado - o filão principal
está na educação continuada. Agora, não se deve
encarar a educação a distância como uma panacéia, ou
como algo para substituir o professor. Mesmo na educação a
distância você precisa do tempo do professor para interagir com o
aluno. Ela não é um milagre; é um ganho de produtividade e
de custo. Alguma perda de qualidade vai haver. Assim como houve perda de
qualidade na substituição do método socrático por
uma sala de aula com horário predeterminado etc. Era inevitável:
houve um aumento do número de pessoas atrás de uma vaga. Era uma
exigênciada sociedade industrial. Essa nova sociedade exige uma demanda
maior ainda para o número de alunos atendidos. E isso em parte vai ter de
ser feito por meio da educação a distância. Há uma
perda, mas acho que essa perda não deve afetar as novas
gerações. A sua formação deve continuar a ser feita
presencialmente usando os instrumentos da educação
adistância. A interaçao presencial professor-aluno é muito
importante, insubstituível.
JU - Qual a posição
do Brasil na área das telecomunicações? Está
trilhando o caminho certo ou ainda engatinha perto de países que apostam
na inovação?
Waldman - As duas coisas. O
Brasil é um país que dentro daquilo que a gente costumava chamar
de Terceiro Mundo - dizem que não existe mais - tinha uma
posição de liderança em termos tecnológicos. Na
América Latina, por exemplo, o Brasil tem essa posição.
Agora, no mundo, estamos engatinhando e não poderia ser diferente. A
desproporção entre o PIBs e entre os percentuais investidos no
desenvolvimento científico e tecnológico desses PIBs é
muito grande. Em numeros redondos, o Brasil tem um PIB dez vezes menor que o dos
Estados Unidos e dedica à ciência e tecnologia um percentual dez
vezes menor: isso dá uma desproporção de um para cem no
esforço despendido em ciência e tecnologia. Acredito que a nossa
produtividade não esteja muito aquém dos países
desenvolvidos, mas o nosso tamanho é muito menor. Na Europa,
países que têm situação semelhante estão
resolvendo esse problema ingressando na Comunidade Européia, fazendo
parte de um bloco maior. Portugal é um exemplo: até pouco tempo
era inexpressivo em C&T. Continua inexpressivo, mas faz parte de um bloco
expressivo e em condições de igualdade. Infelizmente essa porta
não está aberta para o País. O Brasil está numa
encruzilhada. Somos pequenos, conseguimos liderança regional. Significa
alguma coisa. Temos um pólo de tecnologia em Campinas e não em
Buenos Aires porque o Brasil investiu em capacitação
científica e tecnológica, e a Argentina, não. Isso
significa emprego e resulta em alguns benefícios, mas nao no sentido de
termos uma presença expressiva. E nem poderia, por conta da economia.
JU - Qual o papel da universidade
na inovação tecnológica? Como poderia ser incrementado o
relacionamento entre a academia e a indústria?
Waldman - Acho que a
universidade, da forma como as coisas estão hoje organizadas, está
mais perto do mundo da ciência e da tecnologia. E a indústria
está mais próxima do mundo do mercado. Isso significa que
você não pode basear seu sistema de inovação na
universidade. Inovação só se concretiza se for implantada
no mercado. Tenho a impressão que a inovação teria de ser
estimulada através de uma interação efetiva e operante
entre o mundo da universidade e o mundo das empresas. Mas isso tem que partir da
vontade de ambos os grupos. Temos avançado um pouco no Brasil. Esse
nível de interação aqui na Unicamp é
satisfatório, mas deixa a desejar no Brasil. É preciso ter uma
interação universidade-indústria em favor da
inovação. Ou seja, é preciso ter uma empresa estimulada e
incentivada para inovar enquanto fator de competitividade. A empresa precisa
saber por que é preciso inovar. A universidade, por seu lado, precisa
estar interessada em se associar à empresa para conseguir aquele patamar
de inovação. Essa associação é importante
porque você vai conseguir incorporar os conhecimentos do mundo da
ciência e da tecnologia e os conhecimentos que a empresa tem do mundo do
mercado, que nós não temos na universidade. São dois
conhecimentos diferentes que precisam se fundir para que um se beneficie do
outro. A inovação que fica no laboratório pode até
ser boa, nós fazemos isso, mas não é inovação
no sentido que os economistas dão à palavra.
JU - Qual a
participação do Estado nesse processo?
Waldman - Seu papel é
indutor. Agora, tem que ter as condições para que as empresas
estejam interessadas na inovação para a competitividade. É
preciso entender que a capacidade de competir depende da inovação.
JU - Como fica o aluno nesse
contexto?
Waldman - A força do
estudante é o capital do conhecimento e sua capacidade de inovar.