Associação Nacional de Técnicos de Nível Superior
das Instituições Federais de Ensino
Se o homem é um bicho cultural, que vive num mundo cultural, a diferença de conhecimento entre os indivíduos — sem falar na capacidade intelectual que é também desigual — os situa diferentemente na sociedade, ou seja, quanto mais conhecimento, quanto mais competência, melhores ganhos, maiores possibilidades de enriquecer e melhor posição na hierarquia de poder dentro da sociedade.
Reflexão sobre o óbvio
Ferreira Gullar
Folha de S. Paulo, 5 de outubro de 2008
NÃO TENHO nenhuma dúvida de que o homem é, mais que tudo, um
ser cultural e, conseqüentemente, sustentado pelos valores que inventou e nos
quais acredita e segundo os quais se comporta. Esses valores, por sua vez,
determinam as semelhanças e diferenças entre os indivíduos,
ainda que, em geral, os valores fundamentais sejam idênticos. Por exemplo, o
sentido de justiça é um valor comum a todas as culturas.
Dizer que o homem é um ser cultural não significa que todos os
membros de determinadas sociedades sejam igualmente cultos. Basta lembrar-se do
Brasil, onde a disparidade dos níveis culturais das pessoas é enorme,
pois vai desde aqueles que têm curso universitário até os que
mal sabem ler e que são a maioria.
Se o homem é um bicho cultural, que vive num mundo cultural, a
diferença de conhecimento entre os indivíduos — sem falar na
capacidade intelectual que é também desigual — os situa
diferentemente na sociedade, ou seja, quanto mais conhecimento, quanto mais
competência, melhores ganhos, maiores possibilidades de enriquecer e melhor
posição na hierarquia de poder dentro da sociedade.
A conclusão lógica a tirar daí é que a capacidade
intelectual e o grau de conhecimento são fatores de desigualdade entre os
membros de qualquer comunidade humana. E essa desigualdade se expressa, não
apenas no desempenho técnico e profissional, como em todas as demais
atividades e opções que a vida social oferece ou exige de cada
um.
As pessoas são iguais em direito - ou deveriam ser — mas não em
qualidades. Dizer isso equivale a afirmar o óbvio, uma vez que todos sabem
que, dos muitos jovens que se dedicam, por exemplo, a jogar futebol,
raríssimos se tornam um Pelé ou um Ronaldo; dos muitos que se dedicam
à música, raríssimos se revelam talentosos como Tom Jobim ou
Pixinguinha — e o mesmo se pode dizer dos que se dedicam às diferentes
atividades profissionais. Isso é sabido de todo mundo, mas, em certas
circunstâncias, se faz por ignorá-lo ou quase se torna proibido
dizê-lo.
A tese de que os homens são iguais é sagrada e se disseminou de tal
modo que até a vanguarda artística chegou a afirmar que "todo
mundo é artista", como se as qualidades inatas que tornaram Da Vinci e
Van Gogh pintores geniais fossem apenas preconceitos classistas que a burguesia
inventou, para também aí impor a discriminação e a
desigualdade.
A tese da igualdade, que nasce com a Revolução Francesa e se
aprofunda na pregação de Rousseau, Diderot e Babeuf, radicaliza-se
com a exploração selvagem que o capitalismo industrial impõe
à classe operária durante o século 19. Em
contraposição à desigualdade que levou os trabalhadores ao
desamparo e a miséria, surgiu um conceito de igualdade que tanto tem de
generoso quanto de irreal, cuja formulação mais extremada é a
utopia da sociedade sem classes, em que a riqueza social seria distribuída,
não mais "a cada um segundo sua capacidade" e, sim, "segundo
a sua necessidade", o que implicaria num tipo de organização
social que o próprio Marx não se atreveu a definir.
Na prática, essa concepção utópica de igualdade — que
desconhece as qualidades individuais distintas — implicaria em nivelar as pessoas
por baixo, já que o talento e a operosidade não se encontram
igualmente em todos. Se é correto entender que tais qualidades não
fazem de seus detentores seres superiores aos demais, ignorá-las resultaria
tratá-los injustamente e, ao mesmo tempo, impedir a sociedade de desfrutar
da contribuição que lhe dariam.
Mas, mesmo se se põe de lado os indivíduos superdotados, não
seria justo remunerar igualmente o operário eficiente e o relapso. Se as
pessoas devem receber não por capacidade e, sim, segundo a necessidade,
não há por que empenhar-se em alcançar excelência do
desempenho.
A noção equivocada de igualdade contradiz até mesmo o
propósito da sociedade de estender a educação e o conhecimento
a todos os indivíduos. Chega-se a ponto de desconhecer a diferença
entre o voto consciente do eleitor informado e o voto de quem mal conhece os
problemas sociais. Levantar essa questão é visto como preconceito,
muito embora todos saibam que é mais fácil perceber o que diz
respeito a seu interesse imediato do que compreender as necessidades mais
complexas da cidade ou do país.
Por isso, o voto desinformado favorece o demagogo, o político que só
visa suas próprias vantagens, enquanto alija da vida política aqueles
que agem com espírito público. Essa é uma grave ameaça
à democracia, e só pode ser superada elevando-se o nível
cultural e o grau de consciência dos cidadãos.
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