A ignorância da sociedade do conhecimento
Robert Kurz
Caderno Mais!, Folha de São Paulo, 13 de janeiro de 2002
Robert Kurz é sociólogo e ensaísta alemao,
autor de "Os Últimos Combates" (ed. Vozes) e
"O Colapso da Modernização" (ed. Paz e Terra).
Conhecimento é poder — trata-se de um velho lema da filosofia
burguesa moderna, que foi utilizado pelo movimento dos operários europeus do
século 19. Antigamente conhecimento era visto como algo sagrado.Desde sempre
homens se esforçaram para acumular e transmitir conhecimentos. Toda
sociedade é definida, afinal de contas, pelo tipo de conhecimento de que
dispõe. Isso vale tanto para o conhecimento natural quanto para o religioso
ou para a reflexão teórico-social. Na modernidade o conhecimento
é representado, por um lado, pelo saber oficial, marcado pelas
ciências naturais, e, por outro, pela “inteligência
livre-flutuante” (Karl Mannheim) da crítica social teórica.
Desde o século 18 predominam essas formas de conhecimento.
Mais espantoso deve parecer que há alguns anos esteja se disseminando o
discurso da “sociedade do conhecimento” que chega com o século
21; como se só agora tivessem descoberto o verdadeiro conhecimento e como se
a sociedade até hoje não tivesse sido uma “sociedade do
conhecimento”. Pelo menos os paladinos da nova palavra-chave sugerem algo
como um progresso intelectual, um novo significado, uma avaliação
mais elevada e uma generalização do conhecimento na sociedade.
Sobretudo se alega que a suposta aplicação econômica do
conhecimento esteja assumindo uma forma completamente diferente.
Filosofia das mídías Bastante euforia é o que se apreende por
exemplo do filósofo das midias alemão Norbert Bolz:
“Poder-se-ia falar de um big-bang do conhecimento. E a galáxia do
conhecimento ocidental se expande na velocidade da luz Aplica-se conhecimento sobre
conhecimento e nisso se mostra a produtividade do trabalho intelectual. O
verdadeiro feito intelectual do futuro está no design do conhecimento. E,
quanto mais significativa for a maneira como a força produtiva se torne
inteligência, mais deverão convergir ciência e cultura. O
conheciinento é o último recurso do mundo ocidental”.
Palavras fortes. Mas o que se esconde por trás delas? Elucidativo é
talvez o fato de que o conceito da "sociedade do conhecimento” esteja
sendo usado mais ou menos como sinônimo do de “sociedade da
informação”. Vivemos numa sociedade do conhecimento porque
somos soterrados por informações. Nunca antes houve tanta
informação sendo transmida por tantos meios ao mesmo tempo. Mas esse
dilúvio de informações é de fato idêntico a
conhecimento? Estamos informados sobre o caráter da
informação? Conhecemos afinal que tipo de conhecimento é
esse?
Na verdade o conceito de informação não é, de modo
nenhum, abarcado por uma compreensão bem elaborada do conhecimento. O
significado de “informação” é tomado num sentido
muito mais amplo e refere-se também a procedimentos mecânicos. O som
de uma buzina, a mensagem automática da próxima estação
do metrô, a campainha de um despertador, o panorama do noticiário na
TV, o alto-falante do supermercado, as oscilações da Bolsa, a
previsão do tempo... tudo isso são informações, e
poderíamos continuar a lista infinitamente.
Conhecimento trivial Claro que se trata de conhecimento, também, mas de um
tipo muito trivial. É a espécie de conhecimento com a qual crescem os
adolescentes de hoje. Já aqueles na faixa dos 40 anos estão
tecnológica-comunicativamente armados até os dentes. Telas e displays
são para esses quase partes do corpo e órgãos sensoriais. Eles
sabem que informações têm que ser observadas para acessar a
internet ou como filtrar tais informações da rede, por exemplo, como
se faz o “download” de uma canção de sucesso. E um dos
meios de comunicação prediletos dessa geração é
por escrito, do “Short Message Service” ou, na forma abreviada, o SMS
que aparece no display do celular. O máximo de comunicação
está limitado ali a 160 caracteres.
Já é estranho que o armamento tecnológico de ingenuidade
juvenil seja elevado à condição de parte integrante de um
ícone social e seja associado ao conceito de “conhecimento”. Em
termos de uma “força produtiva inteligência” e
“feito intelectual do futuro”, isso é um pouco decepcionante.
Mais próximos da verdade estaremos talvez se compreendermos que se entende
por “inteligência” na sociedade do conhecimento ou da
informação. Assim, numa típica nota da imprensa
econômica publicada na primavera de 2001, lê-se: “A pedido da
agência espacial canadense, a empresa Tactex desenvolveu em British Columbia
tecidos inteligentes. Em tiras de tecido são costurados em série
minúsculos sensores que reagem à pressão. Primeiramente, o
tecido da Tactex deve ter seu desempenho testado como revestimento de bancos de
automóveis. Ele reconhece quem se sentou no banco do motorista...O banco
inteligente reconhece o traseiro de seu motorista”.
Para um banco de automóvel, trata-se, seguramente, de um feito grandioso.
Temos de reconhecer. Mas, ora, não pode ser considerado a sério um
paradigma para o “feito intelectual do futuro”. O problema reside no
fato de que o conceito de inteligência da sociedade da
informação — ou do conhecimento — está muito
especificamente modelado pela chamada “inteligência artificial”.
Estamos falando de máquinas eletrônicas que por meio de processamento
de dados têm capacidade de armazenamento cada vez mais alta, para simular
atividades rotineiras do cérebro humano.
Objetos inteligentes Há muito que se fala na “casa
inteligente”, que regula sozinha a calefação e a
ventilação, ou na “geladeira inteligente”, que encomenda
no supermercado o leite que acabou. Da literatura de terror, conhecemos o
“elevador inteligente”, que infelizmente se tornou maligno e atentou
contra a vida de seus usuários. Novas criações são o
“carrinho de compras inteligente”, que chama a atenção do
consumidor para as ofertas especiais, ou a “raquete inteligente”, que
com um sistema eletrônico embutido permite ao tenista um saque especial,
muito mais potente.
Será esse o estágio final da evolução intelectual
moderna? Uma macaqueação de nossas mais triviais ações
cotidianas por máquinas, conquistando uma consagração
intelectual superior? A maravilhosa sociedade do conhecimento aparece, ao que tudo
indica, justamente por isso como sociedade da informação, porque se
empenha em reduzir o mundo a um acúmulo de informações e
processamentos de dados e em ampliar de modo permanente os campos de
aplicação destes. Estão em jogo aí sobretudo duas
categorias de “conhecimento”: conheci- mento de sinais e conhecimento
funcional. O conhecimento funcional é reservado à elite
tecnológica que constrói, edifica e mantém em funcionamento os
sistemas daqueles materiais e máquinas “inteligentes”. O
conhecimento de sinais, ao contrário, compete às máquinas, mas
também a seus usuários, para não dizer: seus objetos humanos.
Ambos têm de reagir automaticamente a determinadas informações
ou estímulos. Não precisam, eles mesmos, saber como essas coisas
funcionam, mas precisam processar dados “corretamente".
Comportamento programável Tanto para o comportamento maquinal quanto para o
humano, na sociedade do conhecimento a base é dada, portanto, pela
informática, que serve para programar seqüências funcionais.
Lida-se com processos descritíveis e mecanicamente reexecutáveis, com
meios formais, por uma seqüência de sinais (algoritmos). Isso soa bem
para o funcionamento de tubulações hidráulicas, aparelhos de
fax e motores de automóveis; e tudo bem que haja especialistas para isso.
Porém, quando também o comportamento social e mental de seres humanos
é representável, calculável e programável, estamos
diante de uma concretização de visões de terror das modernas
utopias negativas.
Essa espécie de conhecimento social de sinais lembra bem menos vôos
audaciosos do que, isso sim, o famoso cão de Pavlov. No começo do
século 20, o fisiologista Ivan Petrovitch Pavlov havia descoberto o chamado
reflexo condicionado. Um reflexo é uma reação
automática a um estímulo externo. Um reflexo condicionado ou motivado
consiste no fato de que essa reação também pode ser
desencadeada por um sinal secundário aprendido, que esteja ligado ao
estímulo original. Pavlov associou o reflexo salivar inato de cães
com a visão de ração por meio de um sino e pôde
finalmente desencadear esse reflexo também ao utilizar o sino
isoladamente.
Ao que parece, a vida social e intelectual na sociedade do conhecimento —
aliás, da informação — deve ser levada a um caminho de
comportamento que corresponda a um sistema de reflexos condicionados: estamos sendo
reduzidos àquilo que temos em comum com cães, pois o esquema de
estímulo-reação dos reflexos tem tudo a ver com o conceito de
informação e “inteligência” da cibernética e
da informática. O conjunto de nossas ações na vida é
cada vez mais monitorado por dígitos, trilhas, clusters e sinais de todo
tipo. Esse conhecimento de sinais, o processamento reflexo de
informações, não é, porém, exigido somente no
âmbito tecnológico, mas também no mais elevado nível
social e econômico. Assim, por exemplo, se é como se diz, os governos,
os “managers”, os que têm uma ocupação, enfim todos
devem permanentemente observar os “sinais dos mercados”.
Esse conhecimento miserável de sinais não é, na verdade,
conhecimento nenhum. Um mero reflexo não é, afinal, nenhuma
reflexão intelectual, mas seu exato contrário. Reflexão
significa não apenas que alguém funcione, mas também que esse
alguém possa refletir “sobre” a tal função e lhe
questionar o sentido. Esse triste caráter do
conhecimento-informação reduzido foi prenunciado pelo
sociólogo francês Henri Lefebvre já nos anos 50, quando ele, em
sua “Crítica da Vida Cotidiana”, descrevia a era da
informação que chegava: “Ele adquire um
‘conhecimento’. Mas em que consiste ele, exatamente? Não
é nem o conhecimento (Kenntnis) real ou aquele adquirido por processos de
reflexão (Erkenntnis), nem é um poder sobre as coisas observadas,
nem, por último, a participação real nos acontecimentos.
É uma nova forma do observar: um olhar social sobre o retrato das coisas,
mas reduzido à perda dos sentidos, à manutenção de uma
falsa consciência e à aquisição de um pseudoconhecimento
sem nenhuma participação própria...”.
O “sentido da vida” Em outras palavras, a questão do sentido e
da finalidade dos próprios atos de cada um se torna quase impossível.
Se os indivíduos se tornam idênticos a suas funções
condicionadas, eles deixam de estar em condições de questionar a si
mesmos ou ao ambiente que os cerca. Estar “informado” significa
então estar totalmente “em forma”, formado pelos imperativos de
sistemas de sinais técnicos, sociais e econômicos; para funcionar,
portanto, como a porta de comunicação de um circuito complexo. E mais
nada. A geração jovem da chamada sociedade do conhecimento é
talvez a primeira a perder a questão pueril quanto ao “sentido da
vida”. Para isso não haveria espaço suficiente no display. Os
“informados” desde pequenos não compreendem mais nem sequer o
significado da palavra “crítica”. Eles identificam esse conceito
com o erro crítico, indicação de um problema sério, a
ser prontamente eliminado na execução de um programa.
Nessas condições, o conhecimento reflexivo intelectual é tido
como infrutítero, como uma espécie de bobagem filosófica da
qual não precisamos mais. Seja como for, tem-se que lidar com isso de
maneira pragmática. O primeiro e único mandamento do conhecimento
reduzi- do diz: ele deve ser imediatamente aplicável no sistema de sinais
dominante. O que está em questão é o “marketing da
informação” sobre “mercados da
informação”. O conhecimento intelectual tem de ser encolhido
para a condição de “informações”. O que por
exemplo será no futuro um “historiador” já é
mostrado hoje pelo historiador Sven Tode, de Hamburgo, com seu doutorado.
Sob o título “History Marketing”, ele escreve, sob encomenda, a
biografia de empresas a comemorar aniversários de fundação;
ajuda-as também cuidando de seus arquivos. Seu grande sucesso: para uma
empresa norte-americana que se achava envolvida numa disputa pela patente de um
encaixe tipo baioneta para mangueiras de bombeiro, Tode pôde desenterrar
documentos arquivados que proporcionaram a quem encomendou os seus serviços
uma economia de US$ 7 milhões. Cada vez mais desempregados, individuos
submetidos a uma dieta financeira de fome e portadores achincalhados de um
socialmente desvalorizado conhecimento de reflexão se esforçam em
transformar seu pensamento, reduzindo-o aos conteúdos triviais de
conhecimentos funcionais e reconhecimentos de sinais, para permanecer
compatíveis com o suposto progresso e vendáveis. O que se produz
daí é uma espécie de "filosofia do banco de
automóvel inteligente”. Na verdade, é triste que homens
instruidos no pensamento conceitual se deixem degradar à
condição de palhaços decadentes da era da
informação. A sociedade do conhecimento está extremamente
desprovida de espirituosidade, e por isso até mesmo nas ciências do
espírito o espírito vai sendo expulso. O que resta é uma
consciência infantilizada que brinca com sucata desconexa de conhecimento e
informação.
De todo modo, o conhecimento degradado em “informação”
não se revelou economicamente estimulante na medida em que se havia
esperado. A New Economy da sociedade do conhecimento entrou em colapso tão
rápido quanto foi proclamada. Isso também tem sua razão; pois
o conhecimento, seja lá na forma que for, diferentemente de bens materiais
ou serviços prestados, não é reproduzível em
“trabalho” e, portanto, em criação de valor, como objeto
econômico. Uma vez posto no mundo, ele pode ser reproduzido sem custo, na
quantia que se deseje. Em seu debate com o economista alemão Friedrich List,
em 1845, Karl Marx já escrevia: “As coisas mais úteis, como o
conhecimento, não têm valor de troca”. Isso vale também
para o atualmente reduzido conhecimento- informação, cuja utilidade
pode ser posta em dúvida.
Assim a escassa reflexão intelectual vinga-se dos profetas da alegada nova
sociedade do conhecimento. A montanha de dados cresce, o real conhecimento diminui.
Quanto mais informações, mais equivocados os prognósticos. Uma
consciência sem história, voltada para a atemporalidade da
“inteligência artificial”, tem de perder qualquer
orientação. A sociedade do conhecimento, que não conhece nada
de si mesma, não tem mais nada a produzir senão sua própria
ruína. Sua notória fraqueza de memória é ao mesmo tempo
seu único consolo.