Associação Nacional de Técnicos de Nível Superior
das Instituições Federais de Ensino




A proposta é que a cada certo tempo (15 dias?) nesta seção seja publicada uma crônica da Atens Nacional, geralmente sobre alguma temática do momento. Pode ser uma análise ou interpretação de um fato do momento.
Pode ser uma colaboração de qualquer associado, desde que passando pelo crivo da Diretoria, principamente da Diretoria de Comunicação.

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Democracia dos homens-caramujo

Todo esse tempo do movimento TNS, e sua organização incipiente com as atens locais e a Nacional, tem permitido observar vivências e práticas coetâneas com nossa época. Observar como um segmento de profissionais, funcionários públicos, de classe média, se comporta e se relaciona com vários ingredientes da vida em sociedade e seus requerimentos de participação, debate político e democracia, particularizados em sua faceta institucional e profissional. E a lista tns-br é um canal onipresente da expressão do ser do movimento TNS, possibilitando concretamente essa observação, se se quer, sociológica e política — tendo de fundo o fantasma esvoaçante da lista-que-tem-dono, na articulação do gueto e da alienação isolacionista. Encontramos aí aspectos interessantes, que apontam para uma vida que bule, que pulsa, que anela saídas; mas há aspectos sombrios, como expressão de uma alienação sempre presente, como expressão de incompreensões do próprio movimento, como negação da participação, como negação do debate político e, finalmente, como negação da democracia.
A vida que bule é inegável em sua expressão, não deixa dúvidas de sua presença. Mas o outro lado, o da expressão da negação, não é tão evidente, é um incômodo pressentido, adivinhado. Porque se traveste em seus pronunciamentos, e muitas vezes no contrário do que é. Assim, a negação da participação pode parecer participação, a negação do debate se apresenta como debate; e o mais complicado é a negação da democracia, porque é pronunciamento que a quer negar, que a está negando ao mesmo tempo que, retoricamente, a nomeia. Estamos aqui apontando contrastes, mas não queremos dizer que no movimento não há a legítima participação, o debate e a democracia, praticados com as limitações que todos carregam, em sua contemporaneidade.
O que nos interessa, contudo, é colocar o dedo na ferida, explicitar determinados jogos. Para buscar que o movimento avance, se consolide em sua organização. Porque o desafio da participação e do compromisso está sempre presente; para os profissionais de classe média que são os TNS é sempre um desafio, já que a participação não é um dado de partida em seu horizonte costumeiro. É um esforço, é uma tomada de consciência, ou pelo menos tem que ser.
Tem que ser um esforço essa participação, para que possa se desenvolver como democracia. E assim se possa transcender a democracia dos homens-caramujo.
Me explico. A democracia dos homens-caramujo é o ajuntamento de seres que carregam sua própria casa às costas, que carregam seus próprios interesses às costas, com rala imbricação uns com outros, nos esporádicos momentos em que suas miúdas antenas se tocam. Como os caramujos, que são hermafroditas, os seres dessa democracia buscam reproduzir seus próprios interesses, sem contar com os outros. O outro não existe. E talvez calha aqui lembrar de Sartre e o seu "o inferno são os outros". Essa democracia se desenvolve como ajuntamento de interesses, como segregação, como gueto, como auto-realização de desejos isolados. Como multidão solitária (título de livro de David Riesman, que também povoa nossa memória).
Nas listas vemos expressões cotidianas disso, de intervenções que não dialogam, que não se marcam mutuamente. Gritos isolados na multidão.
E essa democracia dos homens-caramujo chega ao extremo quando temos os homens que carregam suas próprias atens, são donos de atens, e com elas avalizam seus interesses.
Essa prática democrática dos homens-caramujo aliada com a sempiterna estratégia, primeira e única, de deixar acontecer, de não se mexer (e suas variantes), dá no que assistimos: a inércia, o marcar passo, o não sair do lugar. E leva ao voluntarismo, a colocar temas na mesa como se tiram coelhos de cartola, a se tomar iniciativas caprichosas.
A não se vislumbrar o futuro.
E falo isso não limitado às escaramuças dos últimos dias. Porque a prática dos homens-caramujos não se resume às intervenções inconsistentes dos homens-caramujo-donos-de-atens ou de homem-caramujo-dono-de-lista. Essas intervenções são um paroxismo do fenômeno, mas não o esgotam. A democracia dos homens-caramujo é que lhes dá base para a expressão de suas diatribes. Eles simplesmente vão mais longe com a prática.
A saída não é uma fórmula, porque não há fórmulas acabadas, a que poderíamos aceder e, voilà, os problemas se acabaram, estilo assim organizações Tabajaras. As saídas possíveis é o esforço de entender o que se passa, não temer tomar posição, afirmar as escolhas, não temer o conflito, não temer as diferenças nem temer pronunciá-las. Não buscar o facilitismo, sempre lembrando que não há almoço grátis. Fazer o que estiver ao alcance de cada um, sem culpas. Potencializar os processos de comunicação, intercâmbio e contato. Estudar, para sair do lugar. Entender os movimentos sociais e políticos. Aprender com a história. Politizar-se (não, senhores e senhoras, não adianta torcer o nariz; a política é necessária, e estamos fazendo política com o movimento TNS).
A atitude mais produtiva para tentar superar tensões não radica — salvo se nos contentamos com um consenso fácil e igualmente estéril — em deslocar e desconhecer pontos conflituosos. Há que enfrentá-los para resolvê-los, de acordo com uma linha de atuação, com objetivos, com projetos. Sem perder de vista que o movimento em si é tensão, tudo a que nos propomos representa, em algum momento, algum tipo de tensão.
Evidente que esses requerimentos de atuação e pensamento primeiramente são colocados para as lideranças, que têm que sair do lugar, que têm que desenvolver a inteligência do movimento.
E tudo isso é o sal que derrete a gosma dos homens-caramujo, destroi sua concha e os transforma em simples homens, que vão atuar e viver segundo suas circunstâncias. Mas podendo se tocar, verdadeiramente se tocando, compreendendo os interesses mútuos, baralhando-os, se fortalecendo, agora sim, na união.
Agora, nestes dias em que vivemos um processo eleitoral na Atens Nacional, é o momento de avançar em organização e participação, para buscar desterrar essa democracia dos homens-caramujo.
* Bem, escrevemos algumas vezes em termos cifrados, para suavizar a coisa. Pois se tocássemos na realidade descarnada talvez não ficasse pedra sobre pedra, até quando nos miramos no espelho.
Março de 2010

Elson Rezende de Mello
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