Nossa crônica
Democracia dos homens-caramujo
Todo esse tempo do movimento TNS, e sua organização incipiente com as
atens locais e a Nacional, tem permitido observar vivências e práticas
coetâneas com nossa época. Observar como um segmento de profissionais,
funcionários públicos, de classe média, se comporta e se
relaciona com vários ingredientes da vida em sociedade e seus requerimentos
de participação, debate político e democracia,
particularizados em sua faceta institucional e profissional. E a lista tns-br
é um canal onipresente da expressão do ser do movimento TNS,
possibilitando concretamente essa observação, se se quer,
sociológica e política — tendo de fundo o fantasma esvoaçante
da lista-que-tem-dono, na articulação do gueto e da
alienação isolacionista. Encontramos aí aspectos
interessantes, que apontam para uma vida que bule, que pulsa, que anela
saídas; mas há aspectos sombrios, como expressão de uma
alienação sempre presente, como expressão de
incompreensões do próprio movimento, como negação da
participação, como negação do debate político e,
finalmente, como negação da democracia.
A vida que bule é inegável em sua expressão, não deixa
dúvidas de sua presença. Mas o outro lado, o da expressão da
negação, não é tão evidente, é um
incômodo pressentido, adivinhado. Porque se traveste em seus pronunciamentos,
e muitas vezes no contrário do que é. Assim, a negação
da participação pode parecer participação, a
negação do debate se apresenta como debate; e o mais complicado
é a negação da democracia, porque é pronunciamento que
a quer negar, que a está negando ao mesmo tempo que, retoricamente, a
nomeia. Estamos aqui apontando contrastes, mas não queremos dizer que no
movimento não há a legítima participação, o
debate e a democracia, praticados com as limitações que todos
carregam, em sua contemporaneidade.
O que nos interessa, contudo, é colocar o dedo na ferida, explicitar
determinados jogos. Para buscar que o movimento avance, se consolide em sua
organização. Porque o desafio da participação e do
compromisso está sempre presente; para os profissionais de classe
média que são os TNS é sempre um desafio, já que a
participação não é um dado de partida em seu horizonte
costumeiro. É um esforço, é uma tomada de consciência,
ou pelo menos tem que ser.
Tem que ser um esforço essa participação, para que possa se
desenvolver como democracia. E assim se possa transcender a democracia dos
homens-caramujo.
Me explico. A democracia dos homens-caramujo é o ajuntamento de seres que
carregam sua própria casa às costas, que carregam seus
próprios interesses às costas, com rala imbricação uns
com outros, nos esporádicos momentos em que suas miúdas antenas se
tocam. Como os caramujos, que são hermafroditas, os seres dessa democracia
buscam reproduzir seus próprios interesses, sem contar com os outros. O
outro não existe. E talvez calha aqui lembrar de Sartre e o seu "o
inferno são os outros". Essa democracia se desenvolve como ajuntamento
de interesses, como segregação, como gueto, como
auto-realização de desejos isolados. Como multidão
solitária (título de livro de David Riesman, que também povoa
nossa memória).
Nas listas vemos expressões cotidianas disso, de intervenções
que não dialogam, que não se marcam mutuamente. Gritos isolados na
multidão.
E essa democracia dos homens-caramujo chega ao extremo quando temos os homens que
carregam suas próprias atens, são donos de atens, e com elas avalizam
seus interesses.
Essa prática democrática dos homens-caramujo aliada com a sempiterna
estratégia, primeira e única, de deixar acontecer, de não se
mexer (e suas variantes), dá no que assistimos: a inércia, o marcar
passo, o não sair do lugar. E leva ao voluntarismo, a colocar temas na mesa
como se tiram coelhos de cartola, a se tomar iniciativas caprichosas.
A não se vislumbrar o futuro.
E falo isso não limitado às escaramuças dos últimos
dias. Porque a prática dos homens-caramujos não se resume às
intervenções inconsistentes dos homens-caramujo-donos-de-atens ou de
homem-caramujo-dono-de-lista. Essas intervenções são um
paroxismo do fenômeno, mas não o esgotam. A democracia dos
homens-caramujo é que lhes dá base para a expressão de suas
diatribes. Eles simplesmente vão mais longe com a prática.
A saída não é uma fórmula, porque não há
fórmulas acabadas, a que poderíamos aceder e, voilà, os
problemas se acabaram, estilo assim organizações Tabajaras. As
saídas possíveis é o esforço de entender o que se
passa, não temer tomar posição, afirmar as escolhas,
não temer o conflito, não temer as diferenças nem temer
pronunciá-las. Não buscar o facilitismo, sempre lembrando que
não há almoço grátis. Fazer o que estiver ao alcance de
cada um, sem culpas. Potencializar os processos de comunicação,
intercâmbio e contato. Estudar, para sair do lugar. Entender os movimentos
sociais e políticos. Aprender com a história. Politizar-se
(não, senhores e senhoras, não adianta torcer o nariz; a
política é necessária, e estamos fazendo política com o
movimento TNS).
A atitude mais produtiva para tentar superar tensões não radica —
salvo se nos contentamos com um consenso fácil e igualmente estéril —
em deslocar e desconhecer pontos conflituosos. Há que enfrentá-los
para resolvê-los, de acordo com uma linha de atuação, com
objetivos, com projetos. Sem perder de vista que o movimento em si é
tensão, tudo a que nos propomos representa, em algum momento, algum tipo de
tensão.
Evidente que esses requerimentos de atuação e pensamento
primeiramente são colocados para as lideranças, que têm que
sair do lugar, que têm que desenvolver a inteligência do movimento.
E tudo isso é o sal que derrete a gosma dos homens-caramujo, destroi sua
concha e os transforma em simples homens, que vão atuar e viver segundo suas
circunstâncias. Mas podendo se tocar, verdadeiramente se tocando,
compreendendo os interesses mútuos, baralhando-os, se fortalecendo, agora
sim, na união.
Agora, nestes dias em que vivemos um processo eleitoral na Atens Nacional, é
o momento de avançar em organização e
participação, para buscar desterrar essa democracia dos
homens-caramujo.
* Bem, escrevemos algumas vezes em termos cifrados, para suavizar a coisa. Pois se
tocássemos na realidade descarnada talvez não ficasse pedra sobre
pedra, até quando nos miramos no espelho.
Março de 2010
Elson Rezende de Mello
Presidente da Atens Nacional