Associação Nacional de Técnicos de Nível Superior
das Instituições Federais de Ensino
Nossa crônica
O movimento dos técnicos de nível superior das Ifes
"Hoje sou funcionário público e este não é o meu
desconsolo maior. Na verdade, eu não estava preparado para o
sofrimento" Murilo Rubião
A epígrafe retirada do conto Ex-mágico da Taberna Minhota, escrito por Murilo Rubião, apresenta um
funcionário público que lamenta ter perdido seus poderes
mágicos. Tal funcionário está associado a uma lógica
antiga do serviço público, segundo a qual pessoas ocupavam cargos
não por suas competências e atribuições e era comum
associá-las a burocracias e a um serviço de pouca qualidade.
Atualmente, o governo tem substituído gradativamente essa lógica pela
excelência na qualidade dos serviços oferecidos à
população e sua melhoria contínua.
Também, no sistema federal de ensino brasileiro, são novas as
propostas, grandes os desafios e não cessaram investimentos maciços
nos últimos anos. Os projetos Reuni e Universidade Aberta do Brasil e a
expansão da rede de ensino tecnológico têm criado, além
de muitas vagas para a formação de pessoas para a sociedade
brasileira, postos de trabalho, tanto para servidores docentes quanto para
técnicos e administrativos.
Esse segundo grupo de servidores, aqui denominados técnico-administrativos
em educação, pertencentes a uma carreira chamada PCCTAE, é
formado por um contingente de pouco mais de 100 mil pessoas, muito diversificado,
distribuído por todas as escolas e universidades federais. Nós,
servidores de nível superior, representamos um terço dessa
força de trabalho e estamos presentes em praticamente todas as unidades da
UFMG.
Há alguns anos, todos nós, técnico-administrativos em
educação, pertencíamos a uma carreira já extinta,
chamada PUCRCE, de 1987, que estabelecia piso salarial satisfatório para
todos os cargos naquela época, principalmente para os de nível
superior. Na década de 1990, o governo federal impôs um arrocho que
gerou forte deterioração do salário desse último grupo.
Em 2005, após difícil negociação de greve em 2004 entre
nossos sindicatos e o governo, iniciou-se a implantação de novo plano
de carreira, o PCCTAE, especialmente danoso para os cargos de nível
superior, pois criou uma tabela salarial de piso baixo, provocando a
adoção de um paliativo compensatório, para evitar que alguns
tivessem seus salários diminuídos. Deve-se ressaltar, no entanto, que
servidores pertencentes a outras classes do PCCTAE também foram
surpreendidos com essa complementação.
Mesmo com a segunda fase da implantação do novo plano, não
houve melhorias significativas para os cargos de nível superior. O seu piso
salarial, que era de dez salários-mínimos em 1987, caiu para quatro
salários-mínimos, em 2006.
Todo esse espetáculo circense da implantação de uma carreira
natimorta e prejudicial aos técnicos de nível superior (TNS) se deu,
em parte, pela falta de participação desse grupo em momentos de
embates políticos dentro de nossos sindicatos e em nossa
representação nacional; ficamos, dessa forma, relegados a aceitar o
que nos foi colocado, sem poder argumentar. Ao sofrer essas perdas salariais,
políticas e de espaço, alguns servidores TNS iniciaram
mobilizações em várias universidades, e em julho de 2005, na
cidade de Ouro Preto, ocorreu o nosso primeiro Fórum Nacional.
Esse fórum de discussão e os outros que se seguiram têm criado
uma formação política e mobilizado os TNS, incentivando a
categoria a ocupar o seu espaço e a lutar pelos seus interesses. Em 2007,
após mais uma longa greve de todos os técnico-administrativos em
educação, obtivemos uma de nossas primeiras vitórias, um
aumento diferenciado proposto pelo próprio governo, para diminuir os
prejuízos causados pelo PCCTAE.
Nosso movimento tem continuado e está crescendo a cada dia. Atualmente,
já temos uma Associação Nacional, fundada em abril deste ano,
no VI Fórum Nacional em Fortaleza, que muito tem trabalhado em sua curta
história. Além disso, os TNS estão criando suas
associações locais em várias universidades. Nosso objetivo
histórico é a valorização do capital intelectual e do
serviço que os TNS oferecem. Para isso, é necessário um plano
de carreira atraente, com salários e benefícios compatíveis
com as demais carreiras do serviço público federal, que incentive
pessoas com potencial e formação apropriada a ingressar nele e ali
permanecer.
Esta semana, nos dias 20 e 21 de novembro (leia mais na página 7), a UFMG
sediará mais um fórum nacional da categoria. Devemos nos organizar e
discutir como propor novos parâmetros não só salariais, mas
benefícios e incentivos próprios de uma carreira sólida e
atraente, tanto para os TNS, quanto para todos os participantes do PCCTAE.
Nós, técnicos de nível superior, classe E do PCCTAE,
procuramos, diferentemente do funcionário público do
Ex-mágico, de Murilo Rubião, nos orgulhar do que fazemos e sabemos
que somos parte de instituições que formam toda a
nação. Aquele funcionário experimenta uma vida sofrida ao ter
escolhido deixar de lado os seus dons especiais para se dedicar a um trabalho
rotineiro e vazio – e esse é o motivo de sofrimento. Acreditamos que
é possível uma experiência profissional plena para os todos os
TNS. É hora de ocuparmos nossos espaços e, junto com os demais
componentes das universidades, colegas de outras classes do PCCTAE, docentes e
discentes, ajudarmos na construção de universidades de qualidades,
democráticas e inclusivas.
Filipe Menezes
Administrador no Departamento de Desenvolvimento de Recursos Humanos da UFMG
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