Associação Nacional de Técnicos de Nível Superior
das Instituições Federais de Ensino
Nossa crônica
Novos tempos
Falo muito de mudanças. De novos tempos, novas idéias, novos
hábitos. Tudo novo! Com otimismo. Um mundo novo, com mais justiça
social, mais igualdade, mais paz, mais honestidade. Um mundo novo e melhor. Para
todos.
O novo instiga. Disfarça-se no tempo. Porque nem tudo é assim
tão novo. O sonho do mundo melhor não é nenhuma novidade.
Lutas e lutadores, novos nos seus tempos, velhos nos atuais. Nenhuma novidade. O
sonho não é novo. Mas o sonho pode adaptar-se ao mundo novo.
O novo traveste-se de positivo. Não necessariamente. Pode ser conservador,
arcaico e atrasado. O holocausto foi novo. Colonização,
escravidão, regime militar, ... tudo um dia foi novo. Democracia e
liberdade, também.
O novo confunde-se no espaço. O que é novo aqui pode não ser
novo lá. O mundo não se movimenta simultaneamente. Liberdades e
fundamentalismos. Atrasos e progressos. Democracias e autoritarismos.
Herdamos um período de desorganização econômica mundial.
Fim de Bretton Woods, dos grandes pactos, dos alicerces, do dinheiro fácil,
do longo prazo. Novos tempos de vulnerabilidades, curto prazo, crises
econômicas. Muda tudo.
Novas tecnologias de produção surgem com o avanço da
microeletrônica. Novos investimentos - públicos e privados - se fazem
necessários para o desenvolvimento e acesso às novas tecnologias,
garantindo espaço na concorrência capitalista.
Muda o Estado investidor, incapaz de continuar atuando como produtor e financiador.
Muda o Estado planejador, incapaz de projetar o longo prazo num mundo sem
parâmetros e em desordem. Muda o Estado-providência, incapaz de
continuar mantendo o bem-estar conquistado.
Muda a grande empresa privada, impossibilitada de manter o grande porte e a
estrutura verticalizada diante da crescente concorrência e necessidade de
inovações tecnológicas. Mudam as estratégias
empresariais, com o surgimento de novas tentativas de sobrevivência em tal
contexto. Micro e pequenas empresas assumem novo papel no desenvolvimento, em
detrimento da grande empresa, antes estatal, agora privada.
Enfraquecem-se os grandes projetos, os grandes sonhos, as grandes utopias. As
grandes propostas, os grandes ideais e as grandes massas. A abordagem macro perde
espaço para as milhares de pequenas estruturas produtivas, cujo otimismo no
nascimento não garante vida longa. A política global é
substituída pela focada. O mundo desejado e projetado reduz-se ao
possível no curto prazo.
O trabalho não sai ileso. Nem o trabalhador. O encolhimento da grande
produção, pulverizada e automatizada, provoca desemprego em todo
mundo, contingente de dispensados que as pequenas empresas e o novo Estado
regulador não conseguem absorver.
O desemprego aumenta a concorrência da força-de-trabalho, o que
provoca movimento de crescente diferenciação. Mais cursos e mais
diplomas para um mundo que não gera empregos necessários.
Ótica perversa: o desemprego não é mais causado pela
dinâmica econômica, mas pela mão-de-obra desqualificada.
Desempregado passa de vítima a réu.
Nas universidades brasileiras, o movimento não é
exceção, apesar da resistência. O PCCTAE tentou remar contra a
maré. Não conseguiu. O mundo foi mais rápido. Atropelou o
PCCTAE.
Que fazer neste contexto? Priorizar o debate democrático parece ser um bom
início. Valorizar as diferenças. E assim, construir uma proposta, que
terá dificuldades de ser uma grande e ampla proposta, e que talvez precise
ser negociada ponto por ponto. Unir o desejado com o possível. Com
paciência. E muita tolerância.
Eduardo Ozorio Nunes dos Santos
Economista, mestre em Administração Pública e servidor da UFES.
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