Associação Nacional de Técnicos de Nível Superior
das Instituições Federais de Ensino




A proposta é que a cada certo tempo (15 dias?) nesta seção seja publicada uma crônica da Atens Nacional, geralmente sobre alguma temática do momento. Pode ser uma análise ou interpretação de um fato do momento.
Pode ser uma colaboração de qualquer associado, desde que passando pelo crivo da Diretoria, principamente da Diretoria de Comunicação.

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O movimento dos técnicos de nível superior das Ifes
Algumas perguntas
A igualdade desigual
Não em nosso nome
Nossa crônica

Novos tempos

Falo muito de mudanças. De novos tempos, novas idéias, novos hábitos. Tudo novo! Com otimismo. Um mundo novo, com mais justiça social, mais igualdade, mais paz, mais honestidade. Um mundo novo e melhor. Para todos.
O novo instiga. Disfarça-se no tempo. Porque nem tudo é assim tão novo. O sonho do mundo melhor não é nenhuma novidade. Lutas e lutadores, novos nos seus tempos, velhos nos atuais. Nenhuma novidade. O sonho não é novo. Mas o sonho pode adaptar-se ao mundo novo.
O novo traveste-se de positivo. Não necessariamente. Pode ser conservador, arcaico e atrasado. O holocausto foi novo. Colonização, escravidão, regime militar, ... tudo um dia foi novo. Democracia e liberdade, também.
O novo confunde-se no espaço. O que é novo aqui pode não ser novo lá. O mundo não se movimenta simultaneamente. Liberdades e fundamentalismos. Atrasos e progressos. Democracias e autoritarismos.
Herdamos um período de desorganização econômica mundial. Fim de Bretton Woods, dos grandes pactos, dos alicerces, do dinheiro fácil, do longo prazo. Novos tempos de vulnerabilidades, curto prazo, crises econômicas. Muda tudo.
Novas tecnologias de produção surgem com o avanço da microeletrônica. Novos investimentos - públicos e privados - se fazem necessários para o desenvolvimento e acesso às novas tecnologias, garantindo espaço na concorrência capitalista.
Muda o Estado investidor, incapaz de continuar atuando como produtor e financiador. Muda o Estado planejador, incapaz de projetar o longo prazo num mundo sem parâmetros e em desordem. Muda o Estado-providência, incapaz de continuar mantendo o bem-estar conquistado.
Muda a grande empresa privada, impossibilitada de manter o grande porte e a estrutura verticalizada diante da crescente concorrência e necessidade de inovações tecnológicas. Mudam as estratégias empresariais, com o surgimento de novas tentativas de sobrevivência em tal contexto. Micro e pequenas empresas assumem novo papel no desenvolvimento, em detrimento da grande empresa, antes estatal, agora privada.
Enfraquecem-se os grandes projetos, os grandes sonhos, as grandes utopias. As grandes propostas, os grandes ideais e as grandes massas. A abordagem macro perde espaço para as milhares de pequenas estruturas produtivas, cujo otimismo no nascimento não garante vida longa. A política global é substituída pela focada. O mundo desejado e projetado reduz-se ao possível no curto prazo.
O trabalho não sai ileso. Nem o trabalhador. O encolhimento da grande produção, pulverizada e automatizada, provoca desemprego em todo mundo, contingente de dispensados que as pequenas empresas e o novo Estado regulador não conseguem absorver.
O desemprego aumenta a concorrência da força-de-trabalho, o que provoca movimento de crescente diferenciação. Mais cursos e mais diplomas para um mundo que não gera empregos necessários. Ótica perversa: o desemprego não é mais causado pela dinâmica econômica, mas pela mão-de-obra desqualificada. Desempregado passa de vítima a réu.
Nas universidades brasileiras, o movimento não é exceção, apesar da resistência. O PCCTAE tentou remar contra a maré. Não conseguiu. O mundo foi mais rápido. Atropelou o PCCTAE.
Que fazer neste contexto? Priorizar o debate democrático parece ser um bom início. Valorizar as diferenças. E assim, construir uma proposta, que terá dificuldades de ser uma grande e ampla proposta, e que talvez precise ser negociada ponto por ponto. Unir o desejado com o possível. Com paciência. E muita tolerância.

Eduardo Ozorio Nunes dos Santos
Economista, mestre em Administração Pública e servidor da UFES.
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