Associação Nacional de Técnicos de Nível Superior
das Instituições Federais de Ensino
Email que circulou em listas de discussão em 30 de agosto de 2007

Avaliação da greve de 2007


Colegas TNS,


Começo essa minha avaliação tentando resgatar algumas passagens do nosso movimento TNS. Indignados e movidos por sentimentos de revolta e traição iniciamos um movimento que ganhou força por todo o Brasil. No início fomos criticados e até ironizados pela iniciativa de se criar um movimento organizado dos TNS. Fizemos encontros nacionais e construímos uma rede de troca de informações para divulgar nosso movimento. Os desdobramentos desses fóruns e as diversidades de opiniões, somados à angústia de não vermos nossas ações se materializarem em forma de avanços na reestruturação da tabela, fizeram com que o movimento tomasse duas linhas de ação. Uma primeira que prega a atuação do movimento por dentro da estrutura sindical atual e uma segunda que defende o rompimento com essa estrutura.
As pessoas que entendem a necessidade dos TNS se organizarem para lutarem por dentro do movimento sindical passaram a lutar pela quebra da linearidade da tabela salarial, buscando a construção de uma nova matriz que garanta a eqüidistância necessária entre os pisos das cinco classes do PCCTAE.
Foram mais de dois anos de luta, com a realização de quatro fóruns nacionais e a presença marcante nas plenárias decisivas para a quebra da linearidade da matriz.
Mesmo depois de aprovada a quebra da linearidade e a determinação dos parâmetros para se construir uma nova tabela, tivemos que lutar para que fosse mantida a decisão aprovada nas instâncias do movimento sindical.
Esse resgate foi preciso para melhor embasar a avaliação a seguir:

SOBRE A GREVE E A NEGOCIAÇÃO
Durante toda essa greve surgiram propostas para que se atropelassem as decisões da plenária da FASUBRA e que a luta fosse pela distribuição dos recursos dentro da tabela, mantendo-se a linearidade.
O CNG não aceitou nem ouvir as propostas que estavam sendo encaminhadas por algumas bases, por entender que feriam uma instância superior, que era a deliberação da plenária.
Durante todo o processo de negociação o governo deixou claro que um dos seus objetivos era resolver o problema do piso da classe E. Que hoje existe um grave problema de gestão nas IFE e que o governo tinha por meta resolvê-lo.
O governo também declarou, por diversas vezes, que não apresentaria na mesa o montante da negociação e que não estava em discussão a possibilidade da FASUBRA dividir esse montante à sua maneira. Que esse é um papel de governo e que o governo não deixaria de cumpri-lo.
Todas as propostas que o governo apresentou, ele o fez sem pensar em lógica de plenária da FASUBRA ou na lógica que existe atualmente no PCCTAE. As propostas do governo obedeceram à sua lógica. Vale o registro que o governo defendia a implantação do piso e teto do PGPE, mas para tal teria que quebrar com a estrutura de matriz única, o que a FASUBRA não permitiu.
Na reunião do dia 27 de agosto o governo apresentou uma proposta, diferente da que ele havia discutido na reunião técnica anterior e, ao ser questionado pela bancada sindical que aquela proposta não retratava o que havia sido discutido, ameaçou retirá-la. A bancada sindical disse que não tinha como acatar ou rejeitar qualquer proposta naquela reunião, pois não tinha deliberação do CNG para tal.
Ao finalizar essa reunião o governo reiterou mais uma vez que o limite orçamentário estava dado, que ele não permitiria a distribuição dos recursos por parte da FASUBRA, porém que estava disposto a fazer pequenos ajustes.

SOBRE O SURGIMENTO DAS PROPOSTAS
Antes de o comando analisar a proposta apresentada pelo governo no dia 27 de agosto surgiu a notícia de que ele (o governo) mandaria para o comando uma outra proposta.
Passaríamos a ter então, tecnicamente, duas propostas do governo. Ambas com a mesma repercussão financeira, porém diferentes em sua formatação.
Independentemente do teor da proposta 1 ou 2, o grande debate que se deu dentro do CNG passou a ser a forma como essa segunda proposta foi concebida.
É fato que o governo apresentou essa segunda proposta após ter analisado alguns parâmetros repassados a ele.
A questão passa a ser, então, a autonomia do CNG.
Desde a greve de 2005, quando alguns problemas surgiram decorrentes de alguns desmandos na condução do movimento, vários questionamentos foram feitos sobre a participação da direção à frente de uma greve. Particularmente, sempre defendi que a direção deva estar à frente do movimento, pois é ela quem responde pelos atos do movimento. Porém, todas as diretrizes têm que ser dadas pelo comando.
A direção da FASUBRA, muito menos seus diretores de forma isolada, não poderia solicitar ao governo um novo estudo, mesmo que mantendo a repercussão financeira, sem antes deixar o CNG analisar a proposta.
É bem provável que a avaliação do CNG sobre a proposta inicialmente feita pelo governo seria a de recusar por ferir as resoluções da plenária, no que se refere à quebra do step constante. É bem possível, também, que esse CNG estudasse alternativas para repassar ao governo para que ele fizesse nova proposta.
Podemos adiantar que, no mínimo, três linhas de propostas poderiam ser analisadas pelo CNG visando uma estrutura de tabela em que se mantivesse o step constante sem aumentar a repercussão financeira. Essas três linhas poderiam ser: a própria proposta elaborada; ou uma tabela que mantivesse o piso da classe E no P32 com o piso da tabela em R$ 920,60; ou uma terceira que reduzisse o teto da classe E, porém com um piso acima de R$ 920,60.
Todas essas três linhas têm seus prós e contras e deveriam ser discutidas dentro do CNG. E é bem possível que a proposta vencedora viesse a ser a mesma proposta que aí está, pois há justificativas para tal.
Se antes havia uma suspeita sobre a origem da proposta 2, após a fala de um diretor da FASUBRA veio a confirmação de que houve solicitação para que o governo fizesse uma análise e a apresentasse.
Outro fato grave na defesa da proposta apresentada por último foram os discursos de algumas pessoas do CNG. Justificativas de que a nova proposta fora feita pensando em garantir maiores ganhos para as classes A, B e C não são verdadeiras e não condizem com a atuação de quem está à frente de movimentos sindicais.

SOBRE AS DUAS PROPOSTAS
Analisando as duas propostas, do ponto de vista dos números, verificamos que a segunda proposta, em relação à primeira: reduz o piso da classe A nos anos de 2008, 2009 e 2010; reduz o piso da classe B em 2008; não reduz e nem aumenta o piso e teto da classe C, em ano algum; aumenta o piso e o teto a classe D, em 2010; reduz o piso e teto da classe E, em 2010.
A proposta 1 do governo, por não possuir step constante, fere as resoluções das instâncias da federação e, portanto, não poderia ser acatada pelo CNG. Mesmo assim, comparando as duas propostas, à luz da resolução da plenária, verificamos que a proposta 2 se aproxima mais da equalização dos pisos do que a proposta 1, conforme o quadro abaixo:
PORCENTAGEM DO PISO DESEJADO, considerando o salário mínimo atual:
CLASSES PROPOSTA 1 PROPOSTA 2
A 86,67% 80,75%
B 71,92% 71,92%
C 63,89% 63,90%
D 56,95% 59,01%
E 67,89% 65,54%
Muito mais importante do que a discussão de qual proposta seria a melhor, se a que foi apresentada por último pelo governo, ou se uma outra que pudesse ser indicado pelo CNG, está a discussão da forma como surgiu a segunda proposta.
O desgaste gerado pelos longos 93 dias de greve, os estresse sofridos por todos que estão no CNG, não podem transcender às atribuições de cada um dentro do processo de negociação em greve. Fato semelhante já havia ocorrido com a elaboração da carta ao presidente, e não pode se tornar um hábito dentro de um movimento de greve.

SOBRE O MOVIMENTO TNS
Vivemos um momento importante do movimento TNS em que temos que ter calma para analisar os caminhos que temos a seguir.
Ainda mantenho minha posição de que a luta deva se dar por dentro do movimento sindical, apesar de saber que a relação entre os TNS e os membros de outras classes, em vários cantos desse Brasil, não é muito salutar.
Isso tem sido denunciado dentro da Federação e diretamente aos dirigentes dos sindicatos de base. Não é por coincidência que os locais onde existe um maior número de pessoas que defendem a saída dos TNS da base da FASUBRA, defendendo a criação de uma carreira específica, estão nas cidades onde há maior resistência dos sindicatos em relação à discussão das soluções das distorções dos PCCTAE.
Vejo a necessidade de nos encontrarmos em um novo fórum, não estou propondo data ou forma, para discutirmos os rumos do movimento.
Ao se confirmar a proposta do governo, mesmo que ainda não tenhamos conseguido o piso de 10 salários mínimos, mesmo que a proposta venha em três anos, está claro que o movimento TNS é um dos grandes vencedores nessa greve.
Não se trata aqui de vitória da classe E sobre as demais classes, mas sim, da vitória da determinação e da busca pela correção das distorções do PCCTAE.
A quebra da linearidade da tabela está consolidada e ela se deu dentro da estrutura do PCCTAE.
Desculpem-me pelo tamanho do texto, mas essa avaliação se fazia necessária.

Abs.

Paulo Menezes
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