Associação Nacional de Técnicos de Nível Superior
das Instituições Federais de Ensino
Email que circulou em listas de discussão em 29 de agosto de 2006

"Classe E", E de especial


Acompanho o grupo desde sua formação e reconheço nele e na tua participação como moderador um importante instrumento de conscientização da categoria dos TNS das IFES e de sua necessária organização de forma independente do sindicalismo tradicional que, por razões históricas e políticas, tem imposto severas limitações à participação da categoria em defesa de seus interesses e objetivos específicos.
Embora não possa substituir a associação física e presencial dos grupos de afinidade, acredito no poder mobilizador do meio virtual, particularmente quando se trata de um grupo ou categoria de abrangência nacional como os TNS/IFES que, apesar de sua importância, tem ficado premida entre a superior capacidade de organização política dos setores docentes por um lado e dos setores administrativos intermediários e auxiliares por outro.
Apoio integralmente a necessidade de afirmar a autonomia dos TNS em relação a estes grupos de interesse, como tem sido defendido neste fórum virtual através do lançamento da idéia de difusão das ATENS em todas as Universidades Federais, a fim de avançarmos na conquista de condições mínimas de paridade política que hoje não possuímos, sob pena de permanecermos eternamente à reboque e a serviço de suas conveniências, com todas as conseqüências nefastas que conhecemos.
No entanto, agora que me encontro um pouco mais familiarizado com as ações organizadas em curso por parte dos TNS, e embora continue absolutamente cético em relação à participação somente "por dentro" da Fasubra, me parece que a atuação simultânea e, na medida do possível, articulada em duas frentes, "por dentro" da Fasubra ao mesmo tempo que "por fora", como ocorre nos grupos de TNS como este aqui, virtual, com seus instrumentos específicos, e em outros presenciais pelo país e nos fóruns nacionais, poderá doravante se constituir em uma estratégia mais eficiente de ação.
Correspondem a atitudes distintas que podem ser complementares, proporcionando inclusive alternativas de ação compatíveis com os perfis pessoais e interesses de atuação dos colegas TNS, desde que aqueles que se dispuserem a participar no âmbito sindical na forma com que ele se apresenta atualmente, tenham consciência dos riscos de sua cooptação às teses que resultaram neste PCCTAE.
Particularmente considero essencial, como disse antes, a organização e consolidação dos grupos e associações próprias dos TNS, ou seja, a ação autônoma e independente em relação às atuais estruturas sindicais como estratégia não apenas necessária como até mesmo vital, de afirmação da identidade e discussão das questões próprias da categoria no âmbito da Universidade Pública. É questão de vida ou morte, de sobrevivência funcional e principalmente operacional, relacionado às condições de atuação profissional, para os TNS, e também para o desenvolvimento das IFES, infelizmente somente percebida após ter sido encomendada a extrema-unção da categoria através do PCCTAE.
Por outro lado, gostaria também de me referir aqui a algumas manifestações de colegas da Fasubra que recentemente andaram "socializando" sua surpresa (?) neste grupo virtual diante da indignação generalizada provocada pelo PCCTAE entre os TNS.
Não sei se a habitual inação e apatia dos TNS, cabalmente demonstrada ao longo do processo de vários anos que finalmente conduziu ao PCCTAE, deveu-se a algum tipo de tendência patológica à omissão, ou simplesmente à dificuldade histórica da categoria em romper a inércia diante do inviável quadro de representatividade política vivida pelos TNS desde sempre. O que importa destacar, no entanto, é que quando o plano foi aprovado, os TNS encontravam-se tão fragilizados pelos anos de arrocho salarial que incidiram especialmente sobre a categoria graças à anti-representação sindical levada a efeito por quem deveria defender também os seus interesses, que não tivemos alternativa senão assinar o PCCTAE, dentro da lógica de que, de qualquer modo, sempre seria melhor qualquer plano do que nenhum, mesmo vendo claramente que aquele não era o nosso plano.
Embora reconheça e possa mesmo considerar meritória a coerência ideológica e desprendimento pessoal revelados pelas manifestações das colegas da Fasubra em suas justificativas em defesa do PCCTAE, infelizmente não há como estender este reconhecimento ao próprio plano. A atuação virtuosa destas colegas em defesa de sua visão particular de mundo e das relações sociais e, por outro lado o plano em si, me aparecem, de acordo com a exposição de suas próprias razões, como coisas absolutamente distintas! Enquanto sua atuação possa ser considerada ideológica, honesta, coerente com seus princípios, etc..., o PCCTAE, ao contrário, deve ser considerado profundamente injusto e desonesto com os TNS, e isto sem nem falar em suas conseqüências desastrosas para a Universidade Pública, que já se faziam sentir com clareza e agora se consolidarão irremediavelmente.
Pode parecer uma contradição em relação ao papel e responsabilidade destes colegas NS na concepção do plano e sua conseqüência para os TNS, porém acredito que foi justamente a presença de colegas militantes NS atuando na Fasubra e na elaboração do PCCTAE, que acabou por conferir legitimidade às graves distorções do mesmo em relação a toda categoria. Pode soar meio cruel em relação à atuação dos realmente dedicados colegas NS da Fasubra que estão, na verdade, "apenas" aproveitando a oportunidade histórica de colocar em prática sua visão socialista do serviço público (?) porém não é nada em comparação às conseqüências de sua ação sobre toda a categoria dos TNS e sobre toda a Universidade.
Ainda que tardia, a conscientização que se dissemina entre os TNS/IFES, finalmente denuncia um grave processo de desmonte concreto da capacidade operacional das Universidades que este plano PCCTAE está por fim institucionalizando de maneira insidiosa. É preocupante, por exemplo, a utilização de artifícios correspondentes à construção de um tipo de "novilíngua" orwelliana que pretende redefinir a realidade através da linguagem, como faz o PCCTAE com sua invenção da escandalosamente oportunista expressão "servidores técnico-administrativos", questionada e denunciada neste grupo de discussão desde seu início.
Neste sentido, é igualmente reveladora e surpreendente, para não dizer chocante, a forma negacionista da identidade profissional com que vejo neste grupo uma colega da Fasubra referir-se aos TNS e a si própria com a designação de ex-NS!!! Mas como?? Esta atitude pode até ser coerente com a nomenclatura e os princípios ideológicos do plano, porém expõe um formalismo burocrático que não consegue disfarçar uma dificuldade, sei lá de que ordem, em portar a própria formação de nível superior, tentando revogá-la com palavras. Como designar por Classe E ou ex-NS pessoas que muitas vezes sonharam com uma determinada profissão desde a infância ou adolescência, pautaram seu lugar no mundo por ela e a manterão consigo até o fim da vida, independentemente de sua aposentadoria administrativa. E o que mais espanta é que todos estes equívocos estão ocorrendo dentro de uma instituição dedicada a formação de profissionais de nível superior como tem sido aqui apontado exaustivamente!!!
Vejo com freqüência falarem em defesa do PCCTAE que ele visa conferir identidade e auto-estima aos servidores. Como assim, se o que confere identidade e auto-estima profissional aos TNS/IFES e aos profissionais universitários em geral é justamente sua condição profissional, alcançada através da formação de nível superior passível de aprimoramento constante e da busca de oportunidades de exercê-la de formas devidamente reconhecidas e remuneradas, que é justamente o que o plano vem negando aos TNS até o momento?
A identidade e auto-estima dos TNS/IFES tampouco depende de serem qualificados de "servidores em educação" (?), outra pérola "novilinguística" que, mais uma vez, remete a supostas carências NM/NA e reitera seu perfil perverso essencialmente atrelado às conveniências destas categorias. Como disse antes, o que confere auto-estima e identidade aos TNS é sua profissão e seu salário, ou seja, condições dignas e adequadas de trabalho e reconhecimento, não importando se em educação, saúde, pesquisa, planejamento, projeto, obras, comunicação, informação, ou seja o que for, ainda que eventualmente possam desenvolver algum tipo de especialização em determinadas áreas técnicas por força da atuação no âmbito das IFES. Mais simples, objetivo, apropriado e abrangente para todos os níveis, classes, cargos e categorias dos servidores não-docentes seria chamá-los de "servidores tal e tal das IFES", assim como os professores são "servidores docentes das IFES" sem necessitar de qualquer outro qualificativo questionável. "Servidores em Educação", sejam docentes ou não, podem ser talvez considerados, se assim o desejarem (?), apenas aqueles vinculados às áreas de Educação, propriamente ditas, da Universidade, fora disto não há sentido nesta expressão da "novilíngua" criada pela Fasubra.
Renato, pretendia comentar alguns assuntos que tinha anotado e que ainda não se esgotaram no texto acima, porém já me alonguei demais para uma só mensagem, o que acaba inclusive não sendo muito produtivo para este tipo de comunicação, além de que já está ficando meio tarde por hoje, de modo que vou interromper agora para terminar de escrever o resto do que pretendia expor amanhã.
Retomando minha mensagem anterior que interrompi porque já se alongava demais para uma só comunicação, continuo a partir de uma manifestação que, estranhamente, vi recentemente neste nosso grupo de discussão em defesa dos interesses dos TNS, por parte de um colega bastante contrariado com as críticas e propostas aqui feitas ao PCCTAE, que incrivelmente apoiava os baixos níveis salariais previstos para os TNS no plano, comparando-os com a realidade do mercado de trabalho para os profissionais de NS.
Quero dizer que, além da consideração de que a lógica produtiva e a inserção social da Universidade Pública não se equivalem às do mercado de trabalho externo e de que temos os menores piso e teto do Serviço Público Federal, convém também lembrar que este PCCTAE privilegiou amplos setores intermediários e auxiliares dos servidores das IFES, evitando que tivessem perdas e trazendo-os muitas vezes para patamares superiores aos do mercado de trabalho.
Porém de qualquer modo, o que interessa saber neste caso é o seguinte: o que a Univer-sidade Pública Brasileira, através de suas instâncias diretivas e deliberativas, exatamente pretende e espera de seus quadros técnicos, e mesmo de seu próprio futuro como instituição?
Porque, se pretende o desmonte de sua estrutura operacional, então está no caminho certo com este perverso PCCTAE que inverte totalmente sua lógica administrativa e funcional. Outro resultado não dá para esperar de um plano que definitivamente destrói hierarquias e finalmente institucionaliza a substituição do trabalho regular interno, que passa a ser um estorvo, pela busca de expedientes externos de toda ordem, como estratégia natural de sobrevivência pessoal e profissional dos setores que por sua formação, responsabilidade, experiência, informação, etc..., devem, inclusive por dever de ofício, ser a locomotiva desta estrutura, quer os demais colegas das outras "classes", ou mesmo os docentes, gostem disto ou não.
E, pior ainda, porque descomprometidos da orientação e responsabilidade conferidas pelos TNS, estabelece-se a atitude de "liberou geral" também entre os setores intermediários de menor grau de responsabilidade que, favorecidos pelo plano, sentirão os privilégios proporcionados por este às suas categorias como prêmio a uma atitude generalizada de negligência e busca de interesses pessoais, em um ciclo contínuo de deterioração dos ambientes de trabalho que conhecemos e revela o perfil profundamente reacionário e equivocado deste plano PCCTAE.
Não se trata absolutamente de fantasia, apenas a constatação e descrição do que vem ocorrendo há muito tempo em resposta a estas equivocadas e reacionárias concepções sindicais atualmente hegemônicas no âmbito dos servidores não-docentes das IFES e que o PCCTAE, infelizmente, acabou por institucionalizar.
Renato, por outro lado, e mudando um pouco o enfoque quero declarar que também não acredito no futuro deste "Cenário 2" que foi espertamente adotado como único pela Fasubra, e considero extremamente lúcida e objetiva sua posição a respeito. Parece-me que, apesar de sua origem confiável e bem-intencionada, esta alternativa serviu como uma luva à usual conduta diversionista da Fasubra, feita de desconversa e enganação em relação aos TNS, sendo que, pelo visto, não foi por outro motivo que ela rapidamente a adotou e aprovou a quebra da estrutura da tabela do PCCTAE em seu nome.
Bem, finalmente quero dizer que temo fazer qualquer proposição, por elementar que seja, à vista do que ocorre com o uso esperto da proposta do "Cenário 2" por parte da Fasubra, porém gostaria de sugerir uma adaptação que poderia servir para superar em parte o caráter "novilinguista" da concepção classista da carreira, organizada em uma estrutura que rebaixa e oculta o significado, inserção funcional e responsabilidade da categoria na vida das Universidades Federais, e assim fundamentar talvez uma abordagem Especial para a questão salarial dos TNS.
Sabe-se que no PCCTAE foram criadas as "classes" A, B, C, e D, reservando-se para os TNS a "classe E", que no meu entendimento e de outras tabelas de carreiras que existem no serviço público, poderia e deveria ser "E" de "Especial"
E deveria ser "Especial" por inúmeras razões! Relaciono abaixo algumas das minhas, porém considero que esta seja uma lista aberta à qual, acredito, muitos colegas TNS teriam suas próprias razões para acrescentar.
Acredito que a categoria dos TNS das IFES constituem uma classe Especial dentro do universo dos servidores não-docentes, porque:
1 - ao contrário das demais "classes", e apenas para ficar dentro da lógica do PCCTAE, jamais será atingida pela possibilidade de ascensão funcional, que constitui, inclusive, princípio fundamental deste plano (?).
2 - ao contrário das demais "classes" que pretensamente, conforme justificativas correntes amplamente veiculadas, dependem do PCCTAE para alcançar condições de identidade e auto-estima, a identidade e auto-estima profissionais dos TNS são conferidas por profissões reconhecidas de nível superior, para cuja formação e aprimoramento dispendem continuamente grande parte de suas vidas, dispensando qualificativos desnecessários e requerendo simplesmente condições adequadas de trabalho e remuneração para sua devida preservação!
3 - a atuação profissional dos TNS implica em responsabilidade não só civil, como criminal, em conseqüência de eventuais falhas decorrentes de seu trabalho!
4 - os TNS ocupam cargos que correspondem ao topo da estrutura operacional da Universidade, atuando como a locomotiva desta complexa composição funcional!
5 - dependendo de seu interesse e vocação, os TNS podem igualmente exercer funções docentes em Instituições de Ensino Superior, (correspondentes à própria atividade - fim das IFES), em outras Instituições de Ensino Superior, sendo-lhes facultado, de acordo com a carga horária assumida, acumular com as funções técnicas exercidas nas IFES. Até onde tenho conhecimento podem inclusive exercer funções docentes temporárias (como professor substituto) na própria IFES em que atuam como técnicos, embora desconheça se podem exercê-las em caráter efetivo, como era possível anteriormente (acredito que até a mudança de regime jurídico).
6 - etc, etc, ...
Renato, reconheço que minhas manifestações tem um caráter mais genérico em virtude não só do distanciamento geográfico em relação aos centros mais atuantes das lutas dos TNS, como também prático, em termos de acompanhamento e conhecimento das ações concretas que tem ocorrido mais em outros estados mesmo. De qualquer forma, a perspectiva mais remota e externa dos acontecimentos e do movimento dos TNS oferece a possibilidade de um distanciamento crítico que também julgo positivo no atual quadro de organização da categoria.

Um abraço
Davit Eskenazi
Arquiteto / UFRGS
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Com a Atens Nacional os TNS se afirmam como sujeitos de sua história