Email que circulou em listas de discussão em 12 de setembro de 2007
Aprendendo a fazer omelete sem quebrar ovos
Essa greve
Essa greve teve sua especificidade, calma lá, sabemos que toda greve tem
sua especificidade,mas essa foi mais diferente ainda. Porque foi a greve da
acomodação, que teve uma marca de nascença para não
incomodar mesmo, por mais que os rituais de sempre da luta tenham sido postos em
prática. Greve para ocupar espaço e proteger o governo. Greve de
propaganda de determinadas forças, à frente a CUT (Foi a greve
para fazer propaganda da cut, para querer demonstrar que a central cumpre algum
papel).Determinadas forças da federação se sentiam
pressionadas para saírem a campo, a mostrarem serviço, além
do que tiveram que assumir a frente da coisa, para impedir que o movimento
trilhasse caminhos mais aguerridos e incontroláveis. Aquelas mesmas
forças que na greve de 2005 fizeram tudo, todo o tempo, para boicotar o
movimento, tendo inclusive algumas bases entrado em greve para poder trabalhar o
seu fim, as mesmas bases que foram agora linha de ponta para a
deflagração...
Basta lembrar que como nunca já se começou a greve na mesa de
negociação. A greve começou no dia 28 de maio e
já no dia 23 tinha havido mesa de negociação. Se o
objetivo fosse fazer greve para pressionar a negociação, essa
já não se justificava desde o início. Claro, uma
plenária antes havia definido a deflagração no final de
maio, mas se poderia simplesmente abortar o movimento, como se fez numa greve
no primeiro semestre de 2004, quando, aí sim, se tinha medo de
não poder controlar tudo e terminar afinal sendo a greve um elemento
de oposição ao governinho Lulla, servindo para
desgastá-lo. Mas agora, a realidade era outra; então, o
controle estava garantido desde o início, e assim era fundamental
realizar a greve para apaziguar ânimos mais exaltados.
E havia outro ingrediente, que era estar junto com os SPFs; se cantava a
unidade, ao mesmo tempo que se trabalhava contra. Sair na frente era uma
forma também de buscar hegemonizar as lutas dos SPFs, e no fundo
romper com a unidade que vinha sendo construída (como se unir com
tantas entidades de oposição ao governinho?!).
E a greve veio. Com aquela pauta extensa de sempre, geral e
específica. Com pelo menos um bode na sala, que era a PL-01, aquele do
congelamento salarial do funcionalismo. Se ia bater contra ela, enquanto o
PAC, de que fazia parte, ia ficar tranqüilo, sem demasiados
questionamentos. E tinha também o projeto de Fundação
Estatal, que pegava primeiro a área de saúde, os Hospitais
Universitários - projeto que verdadeiramente tinha que contar com a
oposição do funcionalismo. E a luta contra ele, além do
mais, trazia aparentemente um consenso entre as forças fasubristas.
Mas se começou negociando no lugar errado a respeito da
Fundação Estatal, no Mec, o que serviu de palco para o ministro
Haddad se comprometer com sua discussão antes de qualquer coisa, etc.,
mas não estava na alçada dele o projeto. Se perdeu tempo
aí e se deu palanque para o Mec.
E depois não se aglutinaram forças em torno dessa
oposição, não se procuraram contatos com entidades que
tivessem que ver com o projeto, e fossem da área de saúde, que
pudessem unir forças; não se ouviu falar do Andes e outros
sindicatos que poderiam lutar contra. Ficou na luta intestina, praticamente
se resumindo a abaixo-assinados, que foi uma das grandes
funções do Comando Nacional de Greve, já que foi sendo
desobrigado de outras...
Essa foi a greve em que o Comando Nacional fez figuração.
Até aquela cartinha cheia de princípios enviada ao Lulla foi
assinada pelo Comando sem que seus integrantes a conhecessem. Ou a Proposta
2, que foi aprovada goela abaixo para o fim da greve, que foi arranjada e
costurada fora do Comando, que só teve que referendá-la, a
partir de uma esperta dita questão de ordem. O Comando resolveu tudo
por consenso, sem uma votação, o que mostra bem como as
forças fasubristas estavam em sintonia.
As negociações durante a greve foram afunilando a pauta; desde
a primeira rodada, permaneceu só a pauta emergencial, a dos recursos
para o tabelão. A batuta sempre esteve nas mãos do governo, por
mais que nossos negociadores fossem presunçosos e quisessem negar a
discussão dos princípios (sic) e concepções (sic
sic)de carreira, orgulho único do serviço público, de
algo que possibilitou que tenhamos os piores piso e teto do funcionalismo
federal. O governo parece que queria alongar a greve, porque se colocou
meados de agosto para fechar a negociação, e justamente perto
daí apresentou a primeira proposta e desconsiderou todas as
contrapropostas da federação, só acedendo a participar
da contrafação final, aquela da proposta 2, costurada à
revelia do CNG.
Desde o início o governo afirmara que ia destinar mais recursos para
corrigir distorções que sofreram os NS. A Fasubra não
pôde fazer muito contra essa determinação, além do
golpezinho no final, em que ainda puxou a sardinha para a letrinha D, tirando
principalmente de A e de E. A Fasubra bem que gostaria de, novamente, rifar
os NS; isso esteve patente, os golpes estiveram configurados nas tentativas
de negar a quebra da linearidade; mas não conseguiu ir muito longe,
porque seu protegido governinho (alguém aí leu alguma linha de
crítica explícita ao governo nos informes de greve?) já
estava sensibilizado, por pressões de reitores e do movimento NS, a
tentar resolver, principalmente, problemas de gestão nas
universidades, para que possam atrair e segurar NS, nada que se pudesse
ingenuamente entender como se ele estivesse realmente do lado dos NS. O
governo não tinha o propósito de vencer a Fasubra, sua grande
aliada, que, por sua vez, fazia de tudo para facilitar-lhe a vida (até
leão de chácara foi improvisado na época da caravana a
Brasília, para que não se ameaçasse a boate
governamental).
Mais uma vez, os NS foram os grandes ausentes, e desta vez tinham decidido,
em sua grande maioria, não participar. Mas o movimento NS esteve
onipresente, até na mesa de negociação. E muitos mesmo
chegam a proclamar, equivocadamente, que foram os grandes vitoriosos,
só pelos resultados que apontam reajustes de tabela de 82,72% em 2010,
quando ainda convivem com congelamento salarial de três anos, e que
quando pingarem os primeiros caraminguás já serão 4 anos
sem reajuste. O movimento NS mesmo antes da greve já incidia sobre seu
andamento, o que levou a uma visão distorcida quando se soube dos
posicionamentos dos representantes do governo na mesa de
negociação. Isso motivou uma iniciativa fora de lugar, sem
senso de oportunidade, timing, que foram os documentos endereçados,
via email, a esses representantes, notadamente o secretário Duvanier,
assinados por uns quantos, o que deu oportunidade de tentativa de satanizar
todo o movimento NS, além dos incitamentos que partiram do CNG para as
bases. Os documentos não incidiram sobre as negociações;
era ingenuidade esperar o contrário, sabendo da íntima
relação da federação com o governo.
De qualquer maneira, foi um momento difícil para o movimento NS, pelo
perigo de perder o rumo e se dividir, o que seria capitalizado pelos que
não o aceitam. Mas foi também uma espécie de
provação. E o resultado é que o movimento não
perdeu o rumo. Justamente no mês mais complicado, agosto, foram criadas
duas associações, uma amostra do que está por vir, que
é a consolidação de uma indignação e de um
caminho, caminho de identidade. Os NS não estiveram em sua grande
maioria participando da greve, mas a acompanharam atentamente, confirmando
suas apreensões e certezas.
O que pode ter sido um ganho dessa greve foi a desconstrução
inexorável do PCCTAE. E que tenha partido do próprio governo
é um paradoxo no ambiente de luta do funcionalismo. A cada greve que
se vive para consertar o tabelão resulta na constatação
de que não tem conserto: ninguém fica satisfeito com os
resultados.
Entretanto, de tantas coisas que se podem lamentar nesta greve, está o
ofício entregue ao Lulla pela Fasubra, choramingando que se estava
desrespeitando os princípios maravilhosos do PCCTAE, aqueles que
pretenderiam reconhecer o fazer, independentemente da formação
escolar. Um documento que, mais que apontar essas bobagens inconsistentes e
atrasadas, tinha a finalidade de colocar o presidente, de maneira positiva,
como interlocutor de toda a categoria, como um seu defensor. Outro
pronunciamento a se deplorar foi o dos companheiros de Santa Catarina, que, a
pretexto de responder aos incitamentos do CNG, investiu contra os NS de uma
maneira lamentável, mais lamentável ainda quando provém
de companheiros que, rebeldes, sempre se caracterizaram em terminar as greves
com muita indignação e críticos à sua
condução, e essa terminou segundo o figurino das mais recentes.
Essa greve foi aquela em que a Fasubra tentou aprender a fazer omelete sem
quebrar ovos.
Elson