Associação Nacional de Técnicos de Nível Superior
das Instituições Federais de Ensino
Publicado no InformAsav n.º 7, de setembro de 2006*

O PCCTAE ARROCHOU E CONGELOU SALÁRIOS

Os TNS se movimentam


O movimento dos TNS, que começou tão logo foi aprovado no final de 2004 o famigerado Plano de Carreira dos Cargos Técnico-Administrativos em Educação - PCCTAE, vem crescendo e se consolidando. Uma das primeiras questões que chamou a atenção dos TNS, integrados na classe E da nova carreira, e os colocou no olho do furacão, foi o Vencimento Básico Complementar-VBC, artifício para não rebaixar salários com o novo tabelão. O VBC que atingiu de cheio a classe E, mas não só ela, na prática significou o congelamento de salários em pelo menos dois anos.
O pessoal começou a se movimentar, incrédulo que se pudesse aprovar um pla-no desses. "Esse plano foi uma tragédia. Uma coisa que não consigo entender como o MEC o aceitou e como a Fasubra o elaborou", diz Michelini Lopes da Mota, profissional da CPD, uma das lideranças do movimento aqui em Viçsa. "A situação salarial dos NS ficou assim vergonhosa. Vergonhosa literalmente." Antônio Teixeira Cordeiro, o Toninho, do Departamento de Biologia Vegetal, também afirma que o plano achatou os salários dos NS e que a Fasubra reconheceu isso, mas vacilou durante a negociação. "Vacilou porque não está trabalhando como sindicato, ela hoje é patrão", diz, para concluir contundente: "O patrão fala e ela acata, é o que se percebe". Eduardo Maffia, da Pró-Reitoria de Planejamento e Orçamento, que assumiu o movimento plenamente também é duro em suas críticas: "Eu tenho colocado em nossas reuniões que a Fasubra, na verdade, tem prejudicado toda a categoria, pessoal de apoio, de nível médio e superior. Se você partir do princípio de que a nossa tabela é a pior do Executivo, só aí é suficiente para se ver que toda a categoria está prejudicada, sendo que nós, NS, muito mais."
O Toninho se tocou com a indignação geral, e muito a seu jeito participou desde o início dos estudos, junto com outros procurando entender a lei e a própria estrutura da matriz hierárquica do plano. E ele se envolveu com o propósito ainda maior, de buscar isonomia salarial de todos os funcionários públicos federais, um piso e um teto gerais iguais para todos. "Seria uma carreira única", diz. Mas ele se decepcionou um pouco quando viu que o interesse imediato era só a questão salarial.

Aumenta a participação
Viçsa foi uma das primeiras bases da Fasubra a aglutinar o movimento dos TNS. Começaram as reuniões e o estudo do plano para entendê-lo e buscar saídas. Emails e ofícios foram disparados para todos os lados, endereçados a quem pudesse ajudar na pressão ao governo para corrigir o mostrengo. A participação nas assembléias da categoria aumentou, delegados a plenárias da Fasubra foram tirados entre os NS, para tentar passar as propostas elaboradas em Viçsa e aprovadas em assembléia.
Michelini observa que o simples fato de os NS irem a assembléias incomodava. "A gente não precisava nem pegar o microfone, a nossa presença incomodava, muito", diz, para em seguida tirar as lições do caso. "Eu acho que qualquer tipo de organização, independente da categoria, incomoda. Tivemos aqui a organização do pessoal de apoio que incomodou, tem a organização dos aposentados que também incomoda. Qualquer tipo de organização que de fato tem peso incomoda."
A profissional da CPD conclui também que a nível local a movimentação serviu para retomar a confiança, mostrar que estavam para contribuir, não para dividir. "Sinto que as pessoas estão acordando novamente para a participação, e viram que isso de fato é importante", fala.
Na medida que o movimento se fortalecia, a indignação crescia e as cobranças também, sobre a Asav e, principalmente, sobre a Fasubra.
Nas outras bases acontecia o mesmo. Daí a que se entendessem e fizessem contato a nível nacional foi o tempo de enviar um email. O movimento tinha que se organizar mais, e os fóruns foram a saída inicial. O primeiro aconteceu na sempre rebelde Ouro Preto, em maio de 2005. Depois ainda viriam mais dois, realizados em Goiânia, um em agosto do ano passado e outro em março deste ano. Está previsto o quarto em Belo Horizonte, na UFMG, nos dias 12 e 13 de setembro.
"Era tudo o que a gente queria. Uma organizada da categoria, como um todo. Era uma rebeldia, um reacender uma chama", diz Michelini sobre o primeiro fórum de Ouro Preto. Para Toninho o fórum foi a necessidade de que a classe que não fora adequadamente representada pelo sindicato teve para fazer alguma coisa, "porque o sindicato não fez".
A partir do primeiro fórum o movimento conta com uma lista de discussão na in-ternet, cuja criação foi sugerida por Viçsa, que já possuía uma local. Justamente a Michelini é sua moderadora. E as coisas estão pegando fogo na lista, porque lá se está discutindo tudo que importa no momento na base da Fasubra, não só a questão principal de tentar remendar o tabelão. Eduardo Maffia considera a lista super importante, "o ponto inicial para os NS terem essa participação mais efetiva".
Até agora o movimento avançou em organização e em propostas, que começam a ser abraçadas, ainda que a contragosto, pela federação, como o assim chamado Cenário 2, que consiste em piso básico de 3 salários mínimos, step de 5% e piso para a classe E de 10 salários mínimos, resgatando os pisos de 1987 do PUCRCE. Para Michelini a organização dos TNS é uma conseqüência de uma desorgani-zação da categoria e da direção da Fasubra. "Até onde isso vai eu não sei", diz.
A contribuição mais recente vem de um fórum regional dos NS realizado no começo de agosto em Florianópolis, Santa Catarina, com propostas que avançam um pouco mais em como fazer para resolver as questões dos NS, seu achatamento salarial, ao mesmo tempo que contempla os outros segmentos. A idéia é ir corrigindo as disparidades por etapas, com aumentos diferenciados, antecipações (gratificações diferenciadas por classes). Depois disso se aplicariam os pisos para cada classe, já na tabela do Cenário 2.

Outra entidade
O movimento despertou inicialmente a indignação dos atingidos com o VBC e motivou a participação de muita gente que virava o nariz para a atividade sindical. As-sim, há de tudo e de todos nessa participação. A movimentação de todo esse pessoal, com os interesses e visões de mundo diversos, contudo, tem transformado as motiva-ções iniciais, aprofundando-as, transcendendo-as e lançando-as a outro patamar. Mesmo que também sirva como caldo de cultivo para a proposta de criação de alguma entidade que congregue os TNS, discussão que divide o movimento.
Aqui em Viçsa também não há acordo com relação à criação de uma entidade dos TNS; as principais lideranças não são favoráveis, pelo menos no momento. Para embasar a discussão, questionário foi enviado a todos os 211 NS da ativa, obtendo resposta de 107, em que uma ampla maioria foi favorável à criação, alguns a querendo desde já. Mas em reunião recente decidiu-se pela não criação, remetendo a discussão para o fórum nacional de Belo Horizonte.
"Sempre tenho defendido que a gente tem que estar junto da Asav, da Fasubra", diz Eduardo Maffia. "Mas nada impede que se tenha um grupo ou associação local também, não saindo da Asav ou da Fasubra, como alguns pensam. Temos grupos, tan-to aqui como a nível nacional, que pensam numa separação radical. Acho que isso não passa. Acho que no fórum vai ser possível dar um encaminhamento melhor." Toninho também é contra a criação de uma entidade dos TNS. Diz que só a mo-tivação do salário não é suficiente para dar uma estrutura à entidade, "e há alguns que também pensam que a divisão não é boa". Para ele há que se juntar às entidades que têm já representatividade para mudar. "Se você quiser se faz ouvir, o sindicato é o palco adequado", diz.
De qualquer modo, criando ou não uma associação separada, conseguindo re-solver ou não VBCs e outras distorções do PCCTAE, o movimento dos TNS é o que de mais importante acontece na base da federação nos últimos anos. Tem servido para desmascarar as práticas e os vícios em que se desenvolvem as lutas e reivindicações dos técnicos-administrativos das Ifes. Resta saber se os que atuam nessas lutas vão aprender, se vão aproveitar a oportunidade para as mudanças devidas, ou se os velhos vícios de sempre predominarão, a prática da cooptação, de buscar os votos agora que se aproxima o Confasubra, para que tudo siga como está, até a próxima crise.
O movimento dos TNS é a maior crítica que a elaboração e posta em prática desse mal ajambrado tabelão já recebeu.


*O InformAsav é jornal da Asav, entidade sindical representante dos técnicos administrativos da Universidade Federal de Viçsa
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