Emails que circularam em listas de discussão em 9 de novembro de 2006
Com relação a não inserção dos
técnico-administrativos na vida da Universidade
Reproduzimos aqui uma série de emails trocados na rede que tocam no tema
crucial da identidade e outras questões relacionadas dos TNS. Por mais
longo que seja o texto, vale a pena dar uma olhada, pois aponta para momentos de
uma discussão de alto nível, e é um registro de quando a
temática da identidade começa a ser colocada, quando se
começa, de alguma maneira, a transcender a luta para consertar o PCCTAE,
de reivindicações meramente salariais.
Estou repassando e-mails dos colegas Elson Mello e Davit Esquenazi, abordando
assunto da maior importância. Recomendo que todos leiam com
atenção essa mensagem.
Um abraço,
Renato das Neves Ferraz Silva
Companheiros TNS de Viçsa presentes nesta lista, queria chamar a
atenção de vocês para o "Código de
comportamento ético-profissional na Universidade Federal de
Viçsa", que está em elaboração e aceita
sugestões. Está na página de UFV. Dêem um olhada
lá. Há algumas visões ou falta de visões sobre
nós como profissionais que temos que tentar mudar.
Creio que nós profissionais que atuamos na universidade temos que
buscar mudar o modo como somos vistos e tratados. A universidade é
local de exercício profissional de várias categorias e,
dependendo do setor, muitos profissionais não têm nenhuma ou
têm pouca vinculação com a área acadêmica. E
isso praticamente não é considerado. Quase que somos
invisíveis em muitos aspectos. Os professores é que geralmente
dão o tom e não conseguem enxergar essa realidade e
especificidade de nossas atuações profissionais.
E, para piorar, nós mesmos não nos fazemos respeitar, ao
não ocuparmos os espaços que temos que ocupar. E reflexo disso
está até mesmo na estrutura desse tabelão que nos move a
todos. Os mesmos companheiros que há anos vieram elaborando projeto de
carreira e até o projeto de "Universidade Cidadã para os
Trabalhadores" trabalharam contra os interesses e a identidade nossos
como profissionais. Lembrem-se que era proposta do PCU (esse que foi
desconstruído para se transformar no tabelão que agora nos
azucrina) instituir uma única denominação: Trabalhadores
ou técnicos em educação. O que contribuiria mais ainda
para indeterminar nossas atuações profissionais ao interior da
universidade, ratificando a compreensão pobre dos docentes sobre
nós como linha auxiliar. O Davit Eskenazi escreveu brilhantes emails
aqui na lista tocando nisso, nessa nossa identidade que vai sendo escamoteada
(Falava de classe E, de Especial...)
Creio que muitos dos problemas que temos em nossos locais de trabalho
provêm desse não entendimento de que a universidade não
abriga só docentes, outros profissionais desenvolvem suas carreiras
aí. Mas como as universidades são dirigidas por docentes (e
aqui não me refiro só ao cargo de reitor) esses profissionais
são remetidos à vala comum dos técnico-administrativos.
Nossos sindicatos e federação, coitados, às voltas com
outras prioridades não conseguem enxergar essas questões ou as
minimizam. E as conseqüências estão aí na perda de
espaço e de identidade, na desvalorização profissional e
até no prejuízo financeiro (vide tabelão).
Bem, toda essa perorata é para conclamar os companheiros de
Viçsa a que tentemos intervir na elaboração desse
código, porque a proposta que está disponível
está atravessada por essas indeterminações. Lá se
ratifica essa falta de visão sobre nós profissionais (num
código de ética profissional!).
O código parece ser elaborado por docentes para as outras categorias,
aí incluindo os discentes, em que somos vistos indistintamente,
praticamente como servidores mais simples que atendem à comunidade.
Quando se refere a quem é membro da universidade, para
observância do código, fala em servidores docentes, não
docentes e discentes. Ou seja, somos vistos sem identidade, só na
referência, negativa, ao docente!
Para não me alongar, sugiro que intervenhamos nessa
elaboração, para tentar mudar essa ideologia que nos torna
invisíveis ou nos desvaloriza como sujeitos que atuam na universidade
como seu campo de exercício profissional. Há outras
falácias no documento.
Vamos lá!
Os companheiros de outras universidades que tenham participado desse tipo de
código em suas universidades, ou se possuem códigos
interessantes que deslindem melhor essas nossas relação com os
docentes, poderiam nos enviar esses documentos ou sugestões.
Elson
Olá Elson!
Parabens pela lúcida crítica à questão da
complicada inserção dos TNS na vida das IFES. Agradeço
também a generosa referência aos comentários que fiz
sobre o tema em participações anteriores.
Elson, teu apelo a atenção dos TNS da Federal de Viçsa
que se encontra em elaboração aborda e aponta com muita
propriedade, e creio mesmo com um viés inédito nesta lista de
discussão dos TNS, aspectos cruciais desta inserção, que
a infeliz, equivocada e, sem dúvida, oportunista
concepção do PCCTAE somente fez por agravar, talvez em
caráter irremediável e definitivo.
Em meu primeiro comentário postado nesta lista no início de
agosto, manifestei uma posiçao de ceticismo em relação
aos resultados concretos que uma atuação no próprio
âmbito das atuais entidades sindicais poderia trazer para a categoria
dos TNS, embora reconhecendo posteriormente que esta opção
não deveria ser descartada, a fim de poder compor um tipo de
ação articulada com o processo de afirmação da
autonomia e identidade do nosso movimento através de
organizaçoes próprias como a ATENS-BR e suas congêneres
regionais.
Naquela oportunidade, creditei vagamente meu ceticismo em
relação a uma participação mais engajada,
à percepção da existência de obstáculos
estruturais nesta opção que só causam a
potencialização das próprias restrições de
ordem funcional, operacional, histórica, regimental, etc, enfim, todas
igualmente estruturais, que definem nossa estranha inserção no
âmbito da Universidade Pública, inviabilizando, então,
conforme acredito, qualquer perspectiva de superação, ainda que
parcial, destas restriç~ões.
Por outro lado, digo que sou cético porém não
pessimista, porque o simples reconhecimento da necessidade de se criar
instâncias próprias de representação como as
ATENS's já reflete a crescente consciência da categoria em
relação a esta "sinuca de bico" funcional e
política em que os TNS estamos metidos, bem como a
percepção de que somente a efetiva organização
formal do movimento em torno de seus interesses específicos
poderá encaminhar um processo de enfrentamento de suas
contradições dentro das IFES a medio/longo prazo.
Enquanto isto, fóruns como este grupo de debate dos TNS cumprem o
papel de preparar o terreno, ampliando a conscientização,
encaminhando questões práticas da melhor forma possível
- como faz o Renato de forma lúcida e combativa em
relação à questão salarial - e levantando os
temas pertinentes à categoria.
Bom , Elson, aí é que me parece que você acabou de marcar
um gol ao abordar a "cabeluda" questão do papel dos docentes
na composição do quadro de variáveis que define nossa
situação atual na vida das IFES.
Um tema que, apesar de sua óbvia importância tem se
caracterizado, entre nós, muito mais por uma atitude de omissão
algo negacionista, ou, no máximo, por abordagens tangenciais, quando,
na verdade, penso - e aí, ao destacar justamente este fato como
elemento central, acredito que se encontra o mérito principal desta
sua mensagem - penso, como dizia, que faz parte intrínseca desta
complicada situação estrutural que nos trouxe à
deplorável situação atual.
Acho que você começou a desenrolar a ponta de uma meada que
andava sendo deixada meio de lado, e cuja consideração na
interação com as demais variáveis, aí
incluídas naturalmente aquelas relativas à
anti-representação sindical de que somos vítimas, me
parece muito pertinente para que se consiga delinear os contornos da complexa
situação que conduziu ao presente "estado da arte" da
categoria.
Um abraço!
P.S.: continuo no próximo capítulo, tao logo possa, porque me
parece que este assunto pode "dar muito pano pra manga".
Davit Eskenazi
Arquiteto/UFRGS
Prezados amigos, Elson e Davit. Além de concordar plenamente com
vocês, quero apontar outros ângulos deste problema e, ao
fazê-lo, espero estar contribuindo com a reflexão e o
desenvolvimento do pensamento crítico.
Com relação à não inserção dos
técnico-administrativos na vida da Universidade,devemos considerar, em
primeiro lugar, a questão histórica, onde os docentes sempre
foram os que exerceram a atividade fim e os outros "não
docentes" a atividade meio, isto é, existiam para servir
(servidores) aos Docentes.
Ao longo dos tempos, esta situação vem se modificando, em
alguns lugares mais rapidamente que noutros, mas ainda persiste em todos.
É realmente uma situação que incomoda àqueles que
estão mais perceptivos ao problema, entre os quais me incluo há
muito tempo.
Atualmente, muitos técnico-administrativos, já estão
ligados ao ensino, pesquisa e extensão e, nestes casos, esta
diferença foi minimizada. Outros concluíram
titulação, mestrado e Doutorado, o que permite um
diálogo de igualdade com os docentes. E, ainda, aqueles que
desenvolvem pesquisa nos seus campos de saber, tanto dentro da Universidade
quanto fora. Evidentemente e infelizmente, estamos falando de uma minoria,
que vem através de esforço e determinação
pessoal, revertendo esta situação.
Em segundo lugar, e aí entro no terreno das probabilidades, a cultura
anglo-saxônica pode servir de paradigma, ao contrário, do que
nós constatamos estar ocorrendo nas IFEs, isto é, a
ausência de inserção da maioria dos
técnico-administrativos na vida da Universidade.
Naquela cultura existe a ?delegação? feita pelo estado para que
o cidadão além de cumprir os seus deveres, zele também
pelos seus direitos. Esta cultura secular criou uma postura, ao longo do
tempo, e ao contrário da nossa, de fazer com que o cidadão
não fique só reclamando e esperando que ou "outro"
resolva a seu problema, de achar que o outro é o culpado pelas suas
deficiências, carências e ausências. Está postura,
no Brasil, é potencializada nas épocas eleitorais, onde os
candidatos se aproveitam para assumir este papel de
"solução" para situações onde só
o cidadão politicamente organizado poderia resolver. Aí
está a causa do diferencial entre os países politicamente
desenvolvidos e aqueles em eterno desenvolvimento. Uma postura ativa e
determinante no estabelecimento do nosso próprio destino.
Como podemos ver, este assunto, pela sua pertinência, pode ser
aprofundado e servir para o desenvolvimento de uma ampla discussão em
torno da nossa postura pessoal e coletiva.
Jorge Quércia
Administrador - UNIRIO
Jorge,
estou de pleno acordo com você. Se é a cultura
anglo-saxônica que poderá nos redimir ou não, eu ousaria
dizer que a cultura brasileira é que nos torna tão moles,
tão acomodados e tão reclamões assim, porque é
geral. Aqui na nossa universidade, em que está sendo redigido um
código de ética, nenhuma entidade representativa das classes se
manifestou assim como, mais específicamente, nenhum TNS exceto tres,
entre eles eu, Elson e um colega se manifestou , no entanto, principalmente
entre os TNS´s pesquisadores, a grande maioria reclama do tratamento
recebido. O que me incomoda é que mesmo quando uma oportunidade nos
é dada "de bandeja", o pessoal continua quieto. Como
conseguir alguma coisa se ninguém se move? nem mesmo apoia ou
discorda? parece uma massa informe. Isso me choca.
Cláudia
Sou administradora, sindicalizada e como a maioria dos NS não
participava das lutas sindicais (assembléias e demais eventos
promovidos pelo sindicato). No entanto desde a greve de 2000, eu e outros
colegas NS resolvemos nos mobilizar depois de ouvirmos da diretoria do
sindicato "se querem ter ganhos, mobilizem-se, democracia é isso,
a maioria vence".
A partir daí, seguimos o conselho, passamos a participar de todas as
assembléias, festas, plenárias da Fasubra, conselho fiscal, GTs
do sindicato, na esperança de uma mudança.
Na UFC somos por volta de 300 técnicos distribuídos nos
departamentos administrativos e acadêmicos e 700 na saúde.
Iniciamos o movimento dos TNS, conseguimos uma grande adesão, causamos
sustos, fizemos o I seminário dos TNS da UFC, participamos de todos os
fóruns nacionais, listas virtuais, viagens à plenária
como delegados e observadores, reuniões com o reitor, enviamos
documento a ANDIFES, fizemos várias reuniões locais com a
participação de 30 a 40% da categoria, o que é
difícil em se tratando de NS, conseguimos em uma das
assembléias uma grande adesão dos médicos (que
representam a maioria dos NS) inclusive o diretor do hospital.
Hoje, fazendo um balanço da nossa luta, me pergunto, o que conseguimos
de concreto em nível local e nacional
??????????????????????????????????
Visibilidade, respeito, carreira, salário digno,
realização profissional e pessoal, qualidade de
vida?????????????
Gostaria que os coordenadores do fórum nacional de NS respondessem.
Será que houve ganho REAL se trabalhando junto com a fasubra ???
Será que não chegou a hora de radicalizar?????? e tomarmos uma
atitude. O ganho político não me interessa, pois não
estou pleiteando nenhum cargo.
Fiz este questionamento, porque na minha opinião a
inserção dos técnicos nos resultados das IFES é
cultural, os docentes sempre vão ter o trabalho técnico como
VAREJO, sofremos a invisibilidade pública, por este motivo só
acredito em ganho quando começarmos a lutar pela
VALORIZAÇÃO DO TRABALHO TÉCNICO, e para isso precisamos
nos desvencilharmos dos técnico-administrativos, esta foi uma
denominação criada pela nossa federação. O que na
realidade existe são os técnicos e administrativos, o
hífen faz uma grande diferença, pois o técnico é
o bacharel, infelizmente o PCU morreu e nós estamos pagando muito alto
para mudar esta situação.
Precisamos assumir nosso papel de técnicos, exigir a
valorização deste trabalho nas universidades a exemplo dos
outros órgãos que respeitam e valorizam seus técnicos,
como por exemplo, a EMBRAPA.
Para mim, a banda continua passando e nós TNS?
Ana Lúcia
Ana Lúcia, você traz novos elementos à discussão
que estamos tentando encetar. Até a observação sobre
essa junção dos técnicos e administrativos (o que
não pode fazer um hífen, meu Deus!) abre um olhar sobre uma
faceta de nossas especificidades. Creio que essa discussão vai se
qualificando, transcendendo o tabelão, mesmo que tenhamos que passar
por ele e talvez desaguar nele. Mas é prematuro se perguntar por
ganhos concretos, porque o nosso desafio é de até tentar
incidir em ideologias, políticas, práticas e
imaginários.
No momento o que prende a atenção é o Confasubra,
já que o movimento TNS na prática está se transformando
em mais uma corrente na federação. Quando temos é que
qualificar essa inserção no movimento, não seguir a
mesmice de uma pretensa participação. Tá, o Confasubra
é um espaço e momento interessante no nosso movimento
político-sindical. Vamos ver os resultados. Muita gente diferente vai
participar, vai tentar influir nesse ramerrão. É o que se tem
que fazer no momento.
Mas depois não podemos deixar de continuar aprofundando muitas dessas
questões que temos tocado de raspão, muitas das quais o
movimento sindical não consegue enxergar e nem está preparado
para equacionar. Basta lembrar que o tão mitificado "Projeto
Universidade Cidadã para os Trabalhadores" da
federação, pedra de toque e supra-sumo de seu ideário,
advoga a denominação Trabalhadores em Educação
para abarcar todas nossas identidades, até incluindo aí os
docentes! Não dava e não dá conta de visualizar a
realidade que vivemos e menos ainda incidir sobre ela. Sobre esse projeto de
universidade estamos sempre prometendo trazer a baila algumas questões
e questionamentos, e algum dia o faremos.
É importante abrir essas discussões.
Se não formos engolidos pelas práticas no seio da
federação, o pós-confasubra promete!
Elson